segunda-feira, setembro 18

Um desígnio para Setúbal


Vivemos numa região com grande potencial. Mas apesar do seu inquestionável valor paisagístico e ambiental, da sua costa litoral de grande qualidade e de estarmos inseridos na região portuguesa com maior rendimento per capita , a Área Metropolitana de Lisboa (AML), existe um problema estrutural que necessitamos enfrentar. Mesmo como capital de distrito, a cidade e o concelho de Setúbal apresentam um conjunto de indicadores ao nível da sua população, das suas condições sócio-económicas e educacionais, muito pouco animadores. Qual a razão? O seu perfil populacional está cada vez mais desadequado ao modelo económico, social e cultural do espaço geográfico e politico onde estamos inseridos: a Europa e o designado mundo ocidental.

A origem desta realidade está no tipo de desenvolvimento económico que a cidade e o concelho têm tido. Durante o último século assistimos a um aumento populacional considerável, o concelho passou de cerca de 25.000 habitantes, em 1900, para 114.000, em 2001, fruto de: duas vagas de industrialização, que apostaram em mão-de-obra intensiva, pouco qualificada e de baixo custo e também de uma descolonização apressada que, conjuntamente, com um contexto político e económico de nacionalização dos grandes “elefantes brancos”, prolongou, para além do razoável, um modelo há muito esgotado.

A concentração de uma população muito heterogénea, desenraizada e com pouca capacidade de reconversão laboral, criou um caldo de cultura deprimido, reivindicativo e avesso à mudança. A orfandade ideológica provocada pelos “amanhãs que deixaram de cantar” provocado pelos anos 80, onde se iniciou um processo de modernização e integração do país na “Europa”, acentuou, de forma mais evidente, os equívocos em que Setúbal estava mergulhada. Um conjunto largo da população mostrou-se desadaptado perante esta nova realidade, caindo rapidamente na dependência estrutural que o “estado social” fomentou. A concentração de uma faixa da população com maior fragilidade social, em certas zonas da cidade, tornou esta espiral depressiva mais difícil de resolver.

Por tudo isto, o fenómeno do desemprego é, aqui, mais sentido do que noutras zonas do país. No entanto, não é procurando proteger emprego desqualificado que vamos melhorar a situação. A solução é apostar na capacidade de adaptação laboral da nossa população. Para que esta tenha melhores empregos e por consequência melhor qualidade de vida. Uma das apostas é reconverter trabalhadores desadaptados em trabalhadores mais qualificados, outra é qualificar os jovens em idade escolar, para que estes tenham, à partida, melhores empregos e no caso de os perderem, poderem adaptar-se facilmente a outro. A primeira é uma intervenção de curto prazo e a segunda de médio e longo prazo. Mas ambas têm de começar a ser implementadas já.
O relatório Education at a Glance 2006, da OCDE, defende que o acesso a uma boa educação e formação é "central" para o bem-estar económico e social dos Estados e das pessoas.Com um bom nível de educação temos meio caminho andado para obter um bom emprego ou pelo menos por mais tempo. As taxas de emprego sobem à medida que as populações têm níveis de formação mais altos. É na educação e qualificação que é necessário apostar para combater o desemprego ou o emprego desqualificado. E não na protecção excessiva do mau emprego ou no alargamento da dependência social do Estado.
Assim, não é só para as crianças e jovens que o sistema de formação e ensino tem que encontrar respostas, mas também para os adultos que se queiram qualificar. Não só através da formação profissional mas também através do regresso à educação dita formal. Sim os nossos adultos têm de voltar à escola e a aposta numa (re) qualificação constante tem de ser encarada como uma actividade de mérito mas habitual. No caso português é fundamental conseguir vencer esta aposta, pois somos o último país da lista nas qualificações da população adulta (entre os 25-64) de acordo com o mesmo relatório da OCDE. O México e a Turquia são o penúltimo e antepenúltimo lugares - países onde, tal como no nosso, mais de metade deste escalão etário não completou o secundário. No topo da escala surge a Noruega, onde a permanência média no sistema educativo é de quase 14 anos.
Em Setúbal, com baixos indicadores escolares - comparativamente com a AML e com as cidades da sua dimensão e relevância - este desígnio é ainda mais importante para sair da espiral depressiva em que se encontra. A responsabilidade de o ganhar cabe a todos. No entanto, os poderes públicos têm particular responsabilidade em abrir caminho, criando condições para que todos possam cumprir a sua responsabilidade. A Carta Educativa, actualmente em discussão, pode ser um instrumento essencial para se atingir este objectivo. Falaremos dela num próximo artigo.
Publicado hoje no Jornal de Setúbal

sábado, setembro 16

Oriana Fallaci




Esta jornalista Italiana de esquerda, que se notabilizou nos últimos anos ao escrever um livro a quente "A Raiva e o Orgulho" logo após o 11 de Setembro e, uns anos depois, com maior serenidade, "A Força da Razão”, morreu. Vítima de uma doença de Cancro, manteve uma luta aberta com a doença do seu corpo e com aquilo que considerava uma doença de alma na "nação" europeia. Segundo ela, esta estava a abdicar dos seus valores e por isso colocava-se de “cócoras” perante os árabes, correndo sérios riscos de nos tornarmos num enorme Al-Andalus, com a sua teoria da Eurábia.

A sua visão não era exactamente a nossa mas apreciávamos-lhe a qualidade rara da frontalidade e da coragem. Recusando o “politicamente correcto” tão em voga na opinião publicada actual e desmistificando a ideia dos países árabes “coitadinhos”. A sua feminilidade tinha ganho uma natural aversão à condição a que a cultura muçulmana remetia as mulheres. Num repúdio epidérmico antes mesmo de racional. E assim foi a sua reflexão final, após o 11/9. Primeiro uma reacção emocional e desesperada depois outra mais calma e atenta.

Uma última homenagem a uma bela e corajosa mulher que fazia questão de mostrar o rosto. Nascida em Florença em 29 de Junho, Oriana Fallaci deixou-nos com 77 anos.

sexta-feira, setembro 15

Dia de Bocage e da Cidade de Setúbal



O DESENGANO


Alma ferida e cega,

Que em grilhões vergonhosos

Adoras a mão ímpia que te entrega

A males tão cruéis e tão penosos,

Como os que sentem no maldito Averno

Os condenados entre o lume eterno;



Alma cega e perdida,

Que a doce liberdade,

O gosto, as horas, o descanso, a vida

Consagras à maligna divindade,

Antes ao monstro, que produz, que gera

Veneno inda pior que o de Megera,



Basta, faze em pedaços

(Porque a razão te grita)

Faze, que é tempo, esses indignos laços,

Essas cadeias vis. Ó alma aflita,

A virtude, a verdade, o Céu te valha;

Vence a terrível, infernal batalha!



Conhece o baixo objecto,

Que em triunfo te arrasta.

Cuidas que um meigo, deleitoso aspecto

Para dourar os teus excessos basta?

Cuidas que um belo riso, um ar benigno,

Filho da infâmia, de ternura é digno?



Que engano! A formosura

Sem modéstia, sem pejo,

Tédio, tédio merece, e não ternura.

Eia, pois, de um frenético desejo

Enfreia, apaga os ímpetos, a chama,

E lava a nódoa com que amor te infama.



Que afronta! Que vileza!

Alma triste, alma escrava

De uma profana, sensual beleza,

De uns olhos falsos donde Amor te crava

Mil setas, cuja ponta aguda e forte

Ervou no opaco Inferno a mão da Morte,



Rasga o véu da cegueira

Fatal que te alucina;

Observa a criminosa, a lisonjeira;

Observa a loba má, que te domina;

Vê seus dolosos beiços nacarados

Fartando peitos vis com vis agrados.



Contempla a desprezível:

De afagos nunca escassa,

Sem pudor, para todos é sensível;

Este chama, outro anima, aquele abraça;

Ei-la com frouxos ais, húmidos beijos,

Matando num minuto a mil desejos.



Olha aonde te abrasas:

Em torno dela, o Vício

Bate as lodosas peçonhentas asas;

E, qual submissa ovelha ao sacrifício,

Ele de Vénus ao altar nefando

A leva pela mão, de quando em quando.



As lágrimas que viste

Na pérfida, que adoras,

São gerais; os suspiros que lhe ouviste,

Não são teus, são comuns; alegres horas,

Como contigo, com mil outros passa.

Vê-lhe a baixeza, esquece-te da graça.



Por gosto e por costume,

Não por domar a ardência

Do teu negro, pestífero ciúme,

Te sacrifica os teus rivais na ausência,

Que, em favor das trições com que trafica,

N’ausência aos teus rivais te sacrifica.



Ó alma! Ó liberdade!

Eu vos sinto abaladas

Pelas vozes da rígida verdade.

Vossas cadeias, por Amor forjadas,

Desejais sacudir… Sim, já vos vejo

Olhar os ferros com horror, com pejo.



Estais já forcejando

Contra o peso insofrível.

Ó liberdade! Ó alma! Estais bramando

Com ânsia, com furor, crendo impossível

Romper, despedaçar tão fixos laços

Sem o socorro de celestes braços.



A fraca humanidade

Para tanto não basta.

Assim é; mas implore-se a piedade

De um Sacro Velho que os mortais afasta

Do quase inevitável precipício,

E ante quem treme o erro e pasma o vício.



Vai pois, Canção, procura o Desengano,

Ele socorre aqueles que o procuram,

Ele o bálsamo dá com que se curam

As feridas que faz Amor tirano.




Opera omnia, dir. Hernâni Cidade, preparação do texto e notas de José Gonçalo Herculano de Carvalho e António Salgado Júnior, vol.II, Lisboa : Bertrand, 1969

terça-feira, setembro 12

Cinzas, Sombras e Novoeiro



É a sensação que fica de muitos dos debates realizados a propósito do 11 de Setembro. Se é este o quadro mundial ainda vamos ter de passar um mau bocado...

domingo, setembro 10

Figueirinha

Despedida da época balnear? Talvez. Mas uma bela despedida, num reencontro com a Figueirinha (Arrábida) que não sentiamos há dois anos.

Uma vez era a Arrábida


Hoje no Público, este texto, belo e cheio de boas sugestões de Benárd da Costa.

Silêncio


Chema Madoz

Tirada 5

110x110 (2001)

"Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo"

Oscar Wilde

sábado, setembro 9

Star Wars



Após quase 30 ano, este filme de George Lucas (1977), terá resistido ao tempo? Hoje na SIC vamos poder verificar isso mesmo vendo-o com os nossos filhos. Boa tarde de Cinema.

(Corrijo este não era o I mas uma versão posterior - A Ameaça Fantasma - de 1999)

Trás-os-Montes 2

A vinha, o vinho os socalcos

Os caminhos seculares.

sexta-feira, setembro 8

Trás-os-Montes



Entre a claridade da penumbra, o verde e a água,



O Douro no seu imenso esplendor,



Homenagem a uma região através do tradicional moinho de água recuperado pelos nossos amigos padeiros para todos podermos comer uma Broa de milho como antigamente.

quarta-feira, setembro 6

Cutileiro


Estátua na Casa de Mateus.

A leveza suspensa da “menina” de Cutileiro com a exuberância contida em reflexo do "Barroco do Douro" da ilustre Casa de Mateus em Vila Real.

Bom de ver.

Gaudí


Casa Milá em Barcelona

Vista e reflexo sobre o terraço desta maravilhosa casa realizada por este singular arquitecto. "La Pedrera" é hoje uma casa museu onde está organizada uma exposição sobre a obra deste notável Catalão. Para além de manter visitável um andar de habitação.

segunda-feira, setembro 4

Génesis



Fazendo uma referência directa ao Génesis Bíblico este filme de Claude Nuridsany e Marie Pérennou, não pretende ser uma discrição bíblica nem apenas um documentário “cientifico”. Faz uma síntese do conhecimento disponível, onde o centro é a vida, focando todas as componentes estruturantes desta (o tempo, o amor, a sedução, a reprodução, a sobrevivência, o nascimento e a morte), na sua medida justa. A relação do infinitamente grande com o infinitamente pequeno é extraordinária. E a beleza das imagens a das cenas escolhidas é soberba. O narrador – um velho ancião negro – faz da narração um caminho sem desvios, entre o imprescindível e o misterioso.
Belo, complexamente simples e essencial.
A ver, se possível em família.


quarta-feira, agosto 23

Viagens por Espanha



Plaza Mayor - Madrid



Vista Geral- Barcelona

Depois de Madrid, agora Barcelona. Duas Cidades muito diferentes, com dois povos muitos distintos, mas igualmente fascinantes.

A viagem segue dentro de momentos...

sexta-feira, agosto 18

Free World





Muitas capas para um livro que defende convictamente a possibilidade de um mundo livre, só possíveis nesse mesmo mundo.


Timothy Garton Ash é professor de Estudos Europeus na Universidade de Oxford e escreve os seus ensaios para a New York Review of Books e tem uma coluna regular no Guardian. Tendo escrito vários outros livros sobre politica e «história do presente» escreveu em 2004 – primeira publicação na GB on 1 July 2004 com o título de “Free World: why a crisis of the West reveals the opportunity of our time” (Penguin) – este livro Free World – A América, a Europa e o Futuro do Ocidente.
A estrutura do livro aparece dividida em dois capítulos onde o primeiro identifica a “Crise” do Ocidente e o segundo pré-anuncia uma “Oportunidade” para o “mundo livre” se alargar ao planeta, onde o “ocidente” – Europa e América – podem ter um papel central a desempenhar. Em ambos os capítulos, o autor, parte da Bretanha (sua terra natal) para a Europa depois para os EUA e seguidamente para o resto do Mundo.
A capacidade de análise sobre o mundo contemporânea e a forma clara e simples – não simplista – com que o autor identifica o essencial da maneira como nos vemos uns aos outros e de como se comportam os principais “blocos” mundiais, entre si, permitem a qualquer leigo sobre a matéria desmistificar uma série de “falsas” questões empoladas, hoje, no debate público por quem persiste em ver o mundo a preto e branco.
Os problemas que enfrentamos não são simples mas, o autor, defende que para a sua resolução, a Europa e a América podem ter – possivelmente apenas nos próximos 20 anos – um papel central na sua resolução, onde a liberdade obriga a novas responsabilidades como a melhoria das condições de vida para a generalidade da população mundial, colocando um freio ao tipo de desenvolvimento “predador” dos recursos, a que vimos assistindo.
No entanto, o discurso está longe daquela “ganga” já estafada da conversa da anti-globalização, mas reconhece as dificuldades e benefícios, que esta realidade inelutável, pode comportar.
Como exemplo de uma questão de muito difícil resolução que qualquer enquadramento estritamente “ideológico” tende a simplificar sem resolver.
A Politica Agrícola Comum (PAC) é um dos maiores consumidores de recursos do orçamento comunitário na Europa. Isto porque não tendo uma agricultura competitiva subsidia-se os agricultores para não se importar produtos agrícolas. Mais baratos em outras partes do mundo. Assim acontece em outros países desenvolvidos nomeadamente na América. Liberalizando este mercado poderíamos contribuir para a melhoria das condições de vida de países do sul, mais pobres, mas capazes de produzir estes produtos mais baratos. O que lhes permita melhorar as suas condições de vida e diminuir a pressão migratória sobre os países mais desenvolvidos.

Mas tomar medidas destas não é simples para os países mais desenvolvidos, pois lançava-se muitos dos seus agricultores no desemprego. O que para além do problema económico, provocaria alterações na paisagem rural, no seu ordenamento e sustentabilidade, aprofundando a desertificação do “interior” e aumentando a pressão demográfica sobre as cidades. Com todos os problemas sociais e ambientais dai decorrentes. Entre os quais estariam o aumento da dependência de produtos “frescos” por parte dos países mais desenvolvidos para os países menos desenvolvidos. Aumentando a dependência do transporte logo do “custo” energético. Até ver, do petróleo. Como resolver? Estamos perante um verdadeiro imbróglio, sem soluções fáceis. Mas impossível de enquadrar num discurso simplista de Globalização versus anti-Globalização.
(Já imaginaram o Louçã a defender a liberalização do comercio agrícola para beneficio do “terceiro mundo” e contra os agricultores portugueses – mas curiosamente nunca vi fazerem-lhe esta pergunta??? )

Será, no entanto na resolução destes problemas que se podem construir politicas de futuro.

Um livro a não perder para todos aqueles que acreditam que um Free World é difícil mas possível e desejável.

Da Alêtheia Editores.

sexta-feira, agosto 4

O Progresso esse engano





Desde há muito que desconfiamos da crença no “progresso”. Esta ideia definida pelo historiador Sidney Pollard como “ a presunção de que existe um padrão na história da Humanidade…que consiste em alterações irreversíveis numa única direcção, e que essa direcção é para melhor” parece-nos, desde que ultrapassámos a idade dos porquês da história, sem aderência à analise do percurso da nossa espécie ao longo dos milénios.

Ronald Wright - um historiador e romancista inglês, formado em Cambridge e actualmente a viver no Canadá – dá-nos razões de sobra para fundamentar-mos esta nossa descrença no “progresso”. Tentando responder a três questões de sempre do ser humano, coloca-as na boca de Gauguin – sim o pintor – de forma a melhor ilustrar o quadro do desenvolvimento de diversas civilizações.

De onde vimos?
Quem somos?
Para onde vamos?

Ao longo de 134 páginas tenta responder de uma forma simples mas alargada às duas primeiras questões para tentar enquadrar a última delas. Faz uma descrição da nossa “evolução” e analisa as diversas civilizações do passado relacionando o seu declínio com o esgotamento da sua “sustentabilidade”. Ou se quiserem quando o “pé” da civilização se tornou maior que a sua “pegada ecológica” levando-a ao declínio ou mesmo extinção.

A tese é simples: Conterão as civilizações, em si, o gérmen da sua própria destruição?

Wright apresenta-nos diversos casos em que assim foi no passado assim como outros em que assim não aconteceu, desmistificando a ideia de que a “pulsão auto-destrutiva” é um fenómeno contemporâneo. Mas avisa-nos que actualmente temos dois problemas mais difíceis de resolver: Temos uma civilização global, ou seja não temos para onde fugir (só o espaço, dirão alguns) e possuímos tecnologia de destruição massiva (nuclear), o que recomenda mais prudência e contenção ao pendor suicidário que parece caracterizar todas as civilizações.

A não deixar de ler.
"Breve História do Progresso" editado pela Dom Quixote.