terça-feira, janeiro 23

Vermeer


Jan Vermeer

The Art of Painting

(1666-73)


A pintura de Vermeer (1632-1675) deixa-nos sempre com a sensação de estarmos a devassar a intimidade do lar e das respectivas personagens. A fragmentação da luz e o grau de detalhe aumentam essa sensação. Mas, ao mesmo tempo, a riqueza dos trajes e a decoração requintada transmitem um conforto agradável. Convidativo, mas interdito.

O artista retrata-se de costas, o que, conjuntamente com a cortina em primeiro plano, acentuam o grau de “devassa” do observador: Nós. A arte de Vermeer é a de nos colocar sempre no papel de “voyeur” de uma cena para que não fomos convidados e, à qual, só podemos aceder através da tela. A pintura funciona como a porta para o interdito. Só ela revela o que temos de mais profundamente humano. A proximidade dada pelos pormenores aproxima-nos do sagrado da forma sob a luz. “Deus está nos detalhes” já muitos o referiram…

Cidades 5


Amesterdão 2006
Casa no Canal

segunda-feira, janeiro 22

Déjà Vu

Este é um filme bem feito, com uma história interessante e bem interpretado.
Toca o velho problema da “máquina do tempo” e da sua (im) possibilidade. Ligado à descoberta de um crime, torna-o comparável “Relatório Minoritário” de Steven Spielberg, em que se montou um “sistema” que permitia prevenir o crime, combatendo-o antes de acontecer. Déjà Vu faz ao contrário tenta descobrir, através da consulta informática ao passado recente (3 dias antes), o assassino. Mas a tentação de intervir sobre o curso desse passado é grande…apesar de limitada, porque sempre imprevisível. Mas mesmo assim o herói não resiste e tenta salvar a heroína, fazendo a viagem.
O “tempo esse grande escultor” poderá ser dominado? O filme faz-nos pensar acerca disso.

sexta-feira, janeiro 19

BESPHOTO


Uma das 10 Fotografias intituladas
Terezín (2006)

Daniel Blaufuks

A terceira edição do prémio de fotografia do Banco Espírito Santo abriu ontem no Centro Cultural de Belém.

Está dividida entre dois fotógrafos - Augusto Alves da Silva e Daniel Blaufuks - integrados no circuito da arte contemporânea, e dois artistas ­- Susanne Themlitz e Vasco Araújo - cuja pesquisa os levou a usar a fotografia como suporte.
Para ver.

terça-feira, janeiro 16

Actualidade


Crânio arraçado de Homem Moderno com Neandertal com 40.000 anos


Hoje no Público

“Portugueses fazem parte da equipa que publicou um artigo numa revista científica norte-americana sobre ossos descobertos na Roménia, com cerca de 40 mil anos, a altura em que a nossa espécie terá entrado em contacto, pela primeira vez na Europa, com o homem de Neandertal.
Volta e meia, conforme as descobertas e as suas interpretações, surge a mesma dúvida: os Neandertais fizeram, ou não, sexo com os humanos modernos, a nossa espécie? A crer no estudo de um crânio quase completo, descoberto numa gruta na Roménia, foi sexo que fizeram. Porque, diz a equipa que o estudou, apresenta uma mistura de traços anatómicos de humanos modernos e de Neandertais. “

Já tínhamos suspeitado. É reconfortante a confirmação. Ajuda a compreender (e desculpar) muita gente.
Claro, tinha de haver portugueses metidos nisto…

segunda-feira, janeiro 15

O voo do corvo - Gibrat


Descobri este autor com o meu amigo Luís Carlos. Agora encontrei o tomo 1 num saldo do “Jumbo de Setúbal”. A preço muito acessível. Quem vive obcecado pela actualidade pode perder verdadeiras pérolas não procurando o que pode ser velho, mas estar a preços acessíveis.

Desenhos do Leonardo 3

domingo, janeiro 14

Amadeo de Souza-Cardoso VI



Barcos
1913


A exposição de Amadeu Souza Cardoso termina hoje há meia-noite. A qualidade da obra e da exposição foram consagradas com a afluência do público. Amadeu merece e a Gulbenkian também.

Mais de 100 mil, ao que parece. Os últimos dias parecem ter sido de fila constante. A Fundação mostrou estar à altura do tempo. Deixou aberta a exposição das 10 de Sábado à 24 de hoje. Toda a madrugada. Notável.

A boa cultura parece mobilizar os portugueses. Parabéns a todos os envolvidos.

O PERFUME



O Perfume, de Patrick Suskind, foi um livro que lemos no primeiro ano da Faculdade em 1990. Como sugestão de uma colega que, então estava obcecada pelos cheiros. Ficamos tão impressionados com a descrição que não resistimos a lê-lo. É livro para se ler de um trago. Recordamos ter faltado a umas aulas para conseguir ler as ultimas paginas, no velho “Canteiro” café restaurante, onde quase vivíamos, ali ao lado da Belas Artes ao Chiado, tal era o entusiasmo.

Não vamos aqui reflectir sobre as diferenças e dificuldades de transpor um grande livro para cinema. Quase todos ficam menores. As imagens oferecem-nos tudo, ou quase, a literatura faz do leitor um construtor. E a nossa imaginação tem uma capacidade de produzir infinitamente superior à realidade.


Rachel Hurd-Wood




No entanto, este filme surpreende. O realizador joga o jogo do escritor. Mas como o cinema não tem cheiro ele tenta transformar a imagem em odor. Assim como Suskind faz com as palavras. Também estas não têm cheiro. Mas que nós somos transportados para o mundo do olfacto, é um facto.Este universo do cheiro está afastado da nossa cultura ocidental. Tentamos por todos os meios anulá-lo. Basta visitar países “do terceiro mundo” – ai aquela Medina de Fez - para perceber o que estou a dizer. Assim a história transporta-nos para a fétida Paris do século XVIII, onde a imundice era geral, mas a sofisticação do gosto “barroco” já promovia a emoção pelos sentidos até pelo nariz. Jean-Baptiste Grenouille, totalmente inodoro, vem ao mundo na podridão de um mercado. Nasce no meio de uma peixaria. A mãe abandona-o à morte, mas ele acaba sendo resgatado, enquanto a jovem mãe desnaturada é condenada a decapitação. E assim acontece sempre que alguém que trata dele, o larga.

Criado num orfanato, é desde sempre, um sobrevivente que "vê" o mundo pelo olfacto. Passa por todos os estádios da genialidade, sem conhecer o amor ou a moral. Só se alimenta da sua obsessão. Descobre, então, que o mais sublime dos aromas está em algumas mulheres. Particularmente as ruivas mais deslumbrantemente belas. E, a partir de então pretende apenas conseguir “guardar” esse aroma, capaz de gerar as mas profundas alterações da alma. Para produzir o melhor perfume mata as mulheres que vão permitir executar a sua criação. Acaba condenado, mas o perfume produzido, salva-o, mais uma vez, levando todos os que assistiam à sua condenação: primeiro a venerá-lo, depois ao êxtase e por fim à luxúria colectiva. Ao assistir a tudo isto, Grenouille, arrepende-se das mortes efectuadas, ganhando a consciência, mas esta só surge depois da sua criação final. Por fim entrega-se à morte, despejando a essência do perfume sobre si no lugar onde nasceu – eterno retorno – sendo devorado pelos seus mais miseráveis conterrâneos. A criação, a culpa e a rendenção sempre lado a lado.

Filme a não perder a quem tenha os sentidos abertos!!!
O Perfume (Perfume: The Story of a Murderer, Alemanha/França/Espanha, 2006), 2h27. Drama. Direção de Tom Tykwer,
Com Ben Whishaw, Dustin Hoffmann, Rachel Hurd-Wood e Alan Rickman.

terça-feira, janeiro 9

Cidades 4

Looking west on South Water Street, Chicago, crowded with horse-drawn wagons and motor trucks filled with produce for market, Apr. 1915.

segunda-feira, janeiro 8

Um(a) Polis (com) sentido

( Imagem do Programa Programa Polis - Av. Luisa Todi)



Falar da polis a propósito do Polis, constitui um bom motivo para reflectir sobre o seu sentido, ou a ausência dele, para os próximos anos.
Melhorar a qualidade de vida urbana constitui, em si, um esforço louvável. O desejo de “construir” cidade é o reflexo do gosto e empenho que os cidadãos demonstram pela sua vida comunitária nas suas diversas dimensões. E esta obra é sempre tarefa colectiva. Sabemos que ao escrever este artigo corremos riscos. Reflectir criticamente sobre uma “obra emblemática para a cidade”, como alguém já lhe chamou, pode parecer apenas vontade de dizer mal. A inexistência de intervenções com significado urbano, nos últimos anos, torna o exercício ainda mais arriscado, por poder parecer fútil ou excêntrico, dada a pobreza em que vivemos. Não é essa a nossa intenção. Apenas pretendemos abrir esta discussão porque entendemos que a cidade se deve e pode fazer de maneira diferente. De forma inteligente e criativa mas, simultâneamente, exigente. A escassez dos recursos assim o determina. Mas essa exigência aprofunda-se pelo confronto esclarecido através do debate. Não da mera lógica maniqueísta entre executivo e oposição, mas pela imposição da razão.
O Polis de Setúbal surge tardiamente no contexto do desenvolvimento deste programa a nível nacional. Conjuntamente com o Plano de Pormenor do Vale da Rosa, aparece como uma espécie de “moeda de troca” pela defesa da co-incineração feita pelo Presidente da Câmara de então, Mata Cáceres. A sua concepção apressada e a natural falta de visão de politicas urbanas por parte dos decisores que nos têm governado, plasmou-se na primeira proposta de intervenção para o Polis, denominado “Plano Estratégico de Setúbal” (PES). Este tem vindo a alterar-se. Não por vontade politica de o mudar, visto a nova maioria eleita desde 2001 o ter adoptado acriticamente, mas por adaptações “pragmáticas” ditadas pela realidade económica vivida desde então. A sua desadequação programática acentuou esta necessidade.
Para não nos perdermos em aspectos mais longínquos ou mesmo de concretização duvidosa acerca do previsto no Programa Polis, concentremo-nos nas três intervenções que estão, ou parcialmente realizadas – «Parque José Afonso» e «Parque Urbano de Albarquel» – ou em fase aproximada de arranque – «Reabilitação e Revitalização da Av. Luísa Todi» (os nomes são os dados pelo Programa Polis).
No “Parque” José Afonso, foi realizado um “pórtico” que enquadra um auditório com capacidade para 2500 pessoas (números oficiais). Esta estrutura era para ter sido, no programa inicial, acompanhada de uma outra, mais leve, para a realização de feiras temáticas e de um parque de estacionamento subterrâneo, que não se realizou por falta de interesse no “negócio” por parte dos privados. O investimento público foi para mais de 4 milhões de euros, na dita estrutura e arranjo exterior. Dando de barato a qualidade arquitectónica da intervenção vamos apenas referir – nos à sua oportunidade. Para se fazer esta intervenção foram retirados do Largo José Afonso, a Academia de Dança e o Grupo Desportivo, servindo, ainda, de pretexto para se “deslocalizar” a Feira de Santiago para as Manteigadas – dando, ai, origem a outro Parque (será praga!!?). Isto tudo com o objectivo de «requalificar» e «manter o carácter identitário do espaço com as representações sociais da população» assim como para atrair «novos públicos» segundo o PES. Seria cómico se não fosse trágico. Numa cidade carente de tudo é “obra”! Para perceber o desvio do que faz falta à cidade basta referir o adiantado estado de degradação do Fórum Municipal Luísa Todi onde se realiza, entre muitos outros, o evento cultural com maior projecção da cidade: o Festival de Cinema de Tróia. Apesar de este edifício também se situar dentro da zona de intervenção, ninguém se terá lembrado dele? Não poderia este constituir um espaço de «requalificação urbana», sendo ele próprio (re) qualificado?
Passemos ao «Parque Urbano de Albarquel», o único digno dessa designação. Esta intervenção parece-nos a que mais sentido faz e que mais benefícios poderá trazer aos Setubalenses e a quem nos visita. Recuperar uma praia urbana para Setúbal é, para além de um reencontro com a sua história, um potente elemento de «aproximação da cidade ao Rio», com as inerentes valências ambientais, lúdicas e turísticas que, inevitavelmente, trará. No entanto a gestão de um espaço limitado por duas “zonas fronteira”, o rio e a serra, não é fácil. E o programa proposto não nos parece suficiente para manter “vivo” o parque. Um «ringue/campo» um «café bar com esplanada» e «dois edifícios de apoio» para «associações recreativas», não nos parece chegar para manter um espaço com estas características afastado de uma degradação a prazo. Já temos algumas experiências na cidade – e fora dela - que nos permitem perceber os seus riscos. Um uso multifuncional, um pouco mais intenso e com horários diferenciados era importante para manter qualificado um percurso com este potencial. A desejada Marina podia ajudar a resolver boa parte do problema, mas, na sua ausência, devem-se procurar, desde já, alternativas.
Por último a «Reabilitação e Revitalização da Av. Luísa Todi» parece-nos a mais desprovida de sentido. Falaremos apenas em dois:
Esta avenida é dos poucos espaços urbanos em Setúbal que não têm necessidade de “reabilitação”. É um espaço com “carácter” que não “envergonha” ninguém. Apesar de ser passível de melhorias, especialmente na sua requalificação pontual (ex: os tão característicos “assadores” de peixe que, tão mal integrados estão, e sobre o qual o Polis não se pronuncia). Admitimos, no entanto, que necessite de alguma “revitalização”. Contudo a responsabilidade não é “sua” mas das suas zonas adjacentes. Esta está situada entre: a “baixa” (comercial), a zona portuária (serviços) e a zona piscatória. Tudo espaços decadentes, monofuncionais, sem população residente e a necessitarem de reconversão urbana urgente. É, por isso, difícil de entender o porquê de intervir na melhor parte, deixando as que verdadeiramente necessitam, sem resposta.
Outro aspecto intrigante é a alteração da circulação viária, suprindo a via norte da avenida e criando «um novo itinerário giratório» entre a via sul e a Rua da Saúde/Av. Jaime Rebelo (via portuária). Para além da fase das obras, que vai gerar um previsível caos na cidade, este novo traçado viário na Luísa Todi parece-nos ir agravar o trânsito em Setúbal, sem se resolver nada do que é verdadeiramente urgente: recuperar o centro histórico e a zona ribeirinha levando para lá novos habitantes e novas funcionalidades urbanas, valorizando toda a zona patrimonialmente mais rica aproximando a cidade do rio.
A Luísa Todi, continua a ser a única verdadeira circular que temos, na ligação entre as suas partes ocidental/oriental, fruto da fractura urbana exercida pelo caminho-de-ferro. É uma realidade indesejável mas é a nossa realidade e, tão cedo, não se vislumbra outra. No entanto, querem acabar com ela, gastando para isso 12,5 milhões de euros, sem trazer vantagens que o justifiquem. Temos horror ao desperdício, justifica-se tal opção? Pensamos que não.
Mas este conjunto de más opções é difícil de corrigir e ainda mais de travar. Politicamente é quase impossível. Da parte da maioria camarária, não se vislumbra qualquer esperança de mudança. Resta-nos apelar ao bem senso. E debater intensamente o melhor para a cidade. Parte do que atrás referimos poderá ainda ser corrigido mas para isso é necessário muito empenho, coragem e visão. Estarão os diversos actores disponíveis para ter um Polis com sentido?

Publicado hoje no Jornal de Setúbal


(Imagem do Programa Programa Polis - Av. Luisa Todi)

terça-feira, janeiro 2

Salamanca

Uma das maiores desvantagens que temos face aos nossos hermanos é a sua qualidade de vida urbana. As suas cidades são uma maravilha. Não só pela sua preservação e conservação da cidade antiga mas , também, pela forma como cresceram e a vivem. E vivem-na intensamente. Sempre. A construção das cidades não é feita por um mas por todos. Aqui deixamos um pequeno testumunho porque as cidades são feitas assim:

Todos por la calle

Este óptimo hábito urbano de que o Espanhois não abdicaram. O andar na Rua. A cidade não é dos carros e dos "excluídos". É de todos.

Exemplar foi ver, no primeiro dia do ano, familias inteiras a passearem na rua com as suas melhores vestes, onde as senhoras se destacavam nos seus casacos de peles, politicamente pouco correcto sabemos, mas demonstrativo da importância dada à cidade. A sua cidade merece o melhor no ano nuevo.


Catedral Nueva.
A sua imponência é esmagadoramente presente.

Café Novelty,

fundado em 1905 em plana Plaza Mayor. Um explendido exemplo de interiores Arte Nova, que se mantem cheio de vida. Até bem tarde.


Plaza de S. Boal, à direita com o Palacio de San Boal, actual Academia de las Artes.


A típica Plaza Mayor, um aspecto comum a quase todas as grandes cidades de Espanha, toda realizada de um único "traço" durante o século XVIII.

Uma das maiores de Espanha. Onde estiveram, de acordo com los periódicos locais, cerca de 4000 personas. Entre os quais nosotros. Cantámos o hino de Portugal, antes da meia noite. Éramos muitos em Salamanca na noche vieja.

Salamanca, conhecida pela sua vida universitária, é muito mais que isso. Cidade a não esquecer.