segunda-feira, maio 9

Estou de Volta

Após o pedido de vários amigos estou de volta.
Estive ausente estando presente. A memória não se apaga. A imaginação também não.
Havia quem já perguntasse, porquê Bacon? Já estamos fartos de Bacon.
Assim mudo para outra grande pintora, e a propósito de memória e imaginação, cá vai a nossa “cota” nacional para a grande arte. Paula Rego.

quinta-feira, fevereiro 10

Bacon


Francis Bacon
Three Figures and a Portrait, 1975


Gostaria por vezes de encontrar, mais do que procurar. Mas no meio da busca nem sempre encontramos o que desejamos. Mas persistir é preciso.

terça-feira, fevereiro 1

Saraband



Ingmar Bergman


A cumplicidade de duas mulheres. É belo de observar. O reverso da medalha será inevitavelmente acentuado. Cruel. Mas essa é a inevitabilidade da condição humana, neste caso manifestada no feminino.
Vem isto a propósito do último filme de Bergman – que fui obrigado a ver num lugar chamado “Millenium Alvaláxia”, bom para o futebol, mas longe de ser confortável – que se revela belo mas cruel, como a vida.
Sempre que vejo um filme deste realizador fico como se me tivesse dado um soco. Primeiro zonzo, depois dorido e por último reflexivo. A sensação nem sempre é agradável mas é sempre estimulante. Depois de recuperado. Obviamente.
Apesar de tudo vale a pena enfrentar “Alvalaxia” para ver o filme. E este é um em grande, não por aquilo que revela, mas por o que oculta. Não será o silêncio, na música tão importante como o som? Não será a sugestão adivinhada tão importante como a imagem explicitada? A não perder… Com as devidas previdências, claro.

quarta-feira, janeiro 26

Egon Shiele


Egon Shiele

A expressão em estado puro. Este é também um dos meus pintores de eleição. Pintor Austríaco da transição do século (1890/1918), discípulo de outro pintor, também Vianense. Gustav Klimt, já aqui referido. Tendo seguido um percurso paralelo a Oskar Kokoschka, criou um traço pictórico muito particular. A expressão do desenho e o carácter do traço como elemento dominante da composição, atingem neste pintor, um ponto alto. A manipulação da forma, assume, através da transformação do corpo, a expressão de sentimentos limite. Este é o centro do mundo de Shiele. O mundo dos corpos como demonstração dos estados da alma.
Na clássica dicotomia, abstracto/figurativo – tão presente no século XX - confesso que os meus pintores de eleição pertencem ao segundo campo. Especialmente os “Maneiristas”, no seu sentido original, à maneira de…

segunda-feira, janeiro 24

Rankings escolares 1


Assisti na passada quinta-feira (20.01.05) ao lançamento do livro “No silêncio somos todos iguais” de David Justino. Sim o ex-ministro. Escreveu um livro pequeno, bem escrito e cientificamente inatacável. Perde-se um ministro recuperou-se o académico. O autor é professor associado do Departamento de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa. De forma sintética rebate um conjunto de ideias feitas sobre os Rankings, escolares e a sua divulgação – sim está sempre em risco de se silenciar – e os factores que influenciam o seu desempenho. Desde já digo que, tal como o autor sou favorável à divulgação dos resultados dos exames, conhecidos como Rankings. Vou passar a explicitar alguns dos pontos essenciais expostos no livro:
Relação, ensino público/privado. Fica demonstrado que as escolas privadas – a minoria do sistema – tem os melhores resultados nas cidades de maior dimensão. Em Lisboa e Porto. Cidades que, têm capacidade demográfica e económica para manter, de forma “sustentada” e ao longo de muitos anos, um conjunto de escolas ditas, de elite. Nas restantes cidades, de menor dimensão, as escolas públicas assumem os primeiros lugares na região. As privadas assumem um lugar idêntico às públicas. Há melhores e piores. Não se destacam.
Relação, desempenho educativo/dimensão das turmas. Não é se pode demonstrar uma relação directa entre estes dois factores. Acontecendo que em muitas das escolas que sofrem menor pressão demográfica, tendo por isso turmas menores, apresentam piores resultados. Neste grupo encontram-se as escolas de zonas de êxodo demográfico, ou menos “procuradas” por alunos nos meios urbanos mais dinâmicos.
Relação, desempenho custo médio por aluno. Desmistifica a ideia de que gastando mais se conseguem melhores resultados, onde muitos exemplos provam justamente o contrário.
Relação, desempenho custo médio do pessoal docente. Este indicador consegue ter uma relação relativamente directa com o desempenho, apesar de existirem desvios “estatísticos” que não permitem conclusões precipitadas. Como se calcula a remuneração está directamente ligada com dois factores: a experiência e por consequência a estabilidade.
Estes são alguns dos aspectos focados que mexem com algumas das “vacas sagradas” do “eduques” cá do burgo. E só por isso já valeu a pena ter sido escrito. É favor ler.
Da Gradiva

terça-feira, janeiro 18

El Greco


El Greco - Vista de Toledo 1597

Há beleza na tempestade. Com aquele turbilhão de azul a negro, sugerindo o desespero, surge o verde esperança da natureza envolvente. Complementar. A cidade – Toledo - e a sua pequenez, sobrevive na serra, com ela e contra ela. Eis nós, face à (nossa) natureza. O medo e a esperança. A circunstância e a transcendência.
El Greco, um dos mais brilhantes pintores de todos os tempos, mostra-nos na paisagem o turbilhão da nossa condição humana. Interiormente e na sua relação com o mundo que nos envolve.
É assim a grande arte. Olhar uma paisagem é sempre um olhar interior. Não é o que vê mas como vê, que distingue. A Arte da Ilustração. Embora esta última também se possa fazer com talento.

segunda-feira, janeiro 17

A Riqueza de Agustina


Agustina

Para que serve a riqueza? Esta questão tem levantado as mais diversas interpretações. Hoje, entre nós, estamos muito preocupados com a criação de riqueza, onde entronca a celebre questão da “produtividade”. A criação de riqueza – ou acumulação de riqueza – é uma actividade olhada e concretizada de formas diversas ao longo da história que se modificou com a cultura do tempo e a forma de civilização. Max Weber na sua obra “A Ética Protestante” atribui a fundação do capitalismo moderno aos Calvinistas Puritanos. Na vontade de uma vocação para “glória de Deus” estes desviam dos conventos o ascetismo e põem-no ao serviço do capital. O despojamento associado à capacidade de realização e uma verdadeira dedicação ao trabalho criam o caldo de cultura para o desenvolvimento da civilização ocidental, assente no “capitalismo”. Como podemos perceber nada acontece por acaso.
Esta explicação vai ao encontro daquilo que me parece mais próximo de uma explicação razoável sobre a questão da criação da riqueza. A vontade de uns, associado à sua capacidade de realização, contra a falta de vontade de outros. E não uns a explorarem os outros. O maniqueísmo da visão de uns explorados e outros exploradores não chega para explicar a necessidade de criar riqueza e da acumular.
Agustina – que teve uma nota no caderno económico deste último Expresso – refere-se através de um dos seus romances, a "Sibila", a esta questão. Apesar de ser sobre uma sociedade já distante – anos cinquenta em Portugal – onde se desenrola o romance, continua a ser certeira. A posse ou a acumulação não é mais que “uma forma de libertação da opressão do trabalho”. Não podia ser mais verdadeiro. Pelo menos do meu ponto de vista. A acumulação está intimamente relacionada com a liberdade. Pois não se pode ter liberdade sem autonomia. E esta consegue-se contra a opressão, de outros ou das circunstâncias. A subsistência assegurada, relacionada com o nosso modo de vida, é essencial para não nos sentirmos “oprimidos”. Nem pelo trabalho.
Hoje convivem vários modos de lidar com esta questão. Mas os novos escravos são já, não só os que dependem inteiramente do trabalho ou da falta dele, mas os que vivem para pagar o crédito contraído. Dependentes dos seus desejos e já não das suas necessidades básicas, vivem aprisionados no seu cartão de crédito.
Citando Agustina“ devemos ter uma restrição das vontades, dos desejos, dos excessos que nos poderiam ser permitidos”. Apesar de tudo a liberdade é sempre uma opção entre aquilo que, face às limitações escolhemos, ou o que nos é imposto. Prefiro a primeira.

quinta-feira, janeiro 13

A Verdade

Será a verdade o mais difícil de dizer? Ou mentir é mais fácil? Esta dúvida atormenta o homem desde que é homem. Não tenho, por isso, a presunção de dizer que é uma questão fácil. Há muitos anos que penso sobre este dilema. Quer na vida pública quer na privada. Tenho acreditado que a verdade – ou a sua aproximação, como diria Popper – é melhor remédio para os problemas. Na vida pública criou-se a convicção que só com a mentira se consegue governar. O ilusionista tornou-se o paradigma do político de sucesso. O verdadeiro artista.
A visão contrária acabou por ser esquecida. Mesmo neste “banho de realidade” a que Manuela Ferreira Leite, nos sujeitou, caímos numa nova ilusão. A do cumprimento do défice. Um problema que, sendo essencial, não constitui o essencial.
Dr. Pereira Coutinho – o empresário – falou sobre o essencial na “ Grande Entrevista”, a Judite de Sousa. Disse coisas simples, ao longo de toda a conversa. Como:
Falar a verdade.
Gastamos mais do que podíamos e podemos, temos de gastar menos.
Estabelecer objectivos e explicar os sacrifícios que necessariamente vamos ter de passar. Criar um rumo.
Ter confiança em nós e nos outros.
Honrar a confiança, cumprindo.

Questões simples que são essenciais como atitude. “Estado de espírito”. O resto já está diagnosticado. Basta querer fazer. Sem artifícios. Deus nos ajude…

quarta-feira, janeiro 12

O Lugar da Arquitectura


ESE - Setúbal. Siza Vieira 1986-1994


A Escola Superior de Educação de Setúbal (ESE) é uma pequena maravilha no contexto da Arquitectura nacional, e no meio local onde se situa – Manteigadas em Setúbal. É a prova de que um lugar pode ser refeito com uma obra de arquitectura.
Esta escola está situada num pólo politécnico de Setúbal que contem diversos edifícios, onde este se destaca na sua relação com a envolvente. Não tenta nenhuma “integração” como agora se usa tanto apenas se afirma no respeito por aquilo que o lugar, antes da arquitectura, já possuía, valorizando-o.
Estudar num espaço como este torna-se um privilégio. A “construção” de um bom espaço eleva o espírito. Será isso quantificável ? Gerações irão usufrui-lo. Sem outros custos. E nem sempre são necessários grandes investimentos, como o presente exemplo pode atestar. Assim é o património. O contemporâneo e o histórico.
A valorização do que existe, evidenciando o seu potencial, é primordial na arquitectura. Este é o lugar da arquitectura.

segunda-feira, janeiro 10

Porta Sobre o Oceano


Edward Hopper - Rooms by the see (1951)

Gostaria de voltar a olhar o mar à minha porta e por ela sentir a luz que necessito. Saudade de futuro? Não sei, mas vontade de mudança.
Estaremos dispostos a trazer novos mundos para o (nosso) mundo? Teremos a coragem de ser aventureiros e criadores na nossa própria terra? É urgente libertar amarras. Podemos perder alguma segurança – medíocre aliás – mas ganharemos outro estado de espírito.
Abrir portas é preciso. Escancará-las. O mofo tem de sair, definitivamente!

quinta-feira, janeiro 6

Farol é preciso

Falar de politica vale sempre a pena. Mas falar agora sobre o contexto político do país é, no mínimo, desolador. Todos os temas relacionados com esta campanha raiam o cómico, caindo rapidamente no trágico. Penso que todos os seres lúcidos desejam que 21 de Fevereiro chegue depressa. Apesar de não ser certo o descanso. Temo que a tragédia volte mais rápido do que possamos prever.
Não me lembro de uma época tão tristemente, desinteressante e asfixiante. Sem perspectiva. Aparentemente sem horizonte. É estranho que todos os debates sobre a “espuma dos dias” me pareçam surrealismo de Série B. Como exemplo, o último “Quadratura do Circulo” foi, sem dúvida, o pior que eu já assisti. Reflecte bem o “espírito do tempo”.
Sugiro que falemos pois de outras coisas. Onde poderá estar um farol que me alumie a alma?
Até amanhã.

Edward Hopper

domingo, janeiro 2

Regresso

O regresso a casa é sempre um misto de desejo pelo reencontro do que nos é mais caro e uma súbita e precipitada nostalgia do lugar que deixamos – se dele guardamos boa memória. Assim foi, mais uma vez, no Funchal. Bom Ano Novo.


quinta-feira, dezembro 23

Funchal



Deixar o frio e ir para o ameno clima do Funchal é bastante interessante. Adeus frio, até ao próximo ano…
Se poder volto por lá a escrever.
Boas Festa!

segunda-feira, dezembro 20

Paradigma Urbano

As cidades do novo milénio. Livro a não perder para quem, como eu, se interessa pelas problemáticas urbanas. Myron Magnet, quem seleccionou este conjunto de artigos, publicados na City Journal. Esta revista trimestral tem sido, nos últimos anos, a “caixa de ressonância” do debate sobre politicas urbanas, politicamente incorrectas. Questões como a «segurança social», a «criminalidade», a «educação», os «sem abrigo», são abordados de uma outra perspectiva. Pouco dada ao tradicional discurso da “complexidade” que nos torna a todos inoperantes, estas análises, baseadas em questões concretas, com soluções aplicadas, abre-nos novos horizontes sobre velhos problemas das cidades. É obviamente sobre a realidade Americana, mas não deixa de reflectir os problemas que sentimos. A forma como se poderão resolver é que é distinta. Desta vaga de novas politicas urbanas Nova Iorque, foi a sua expressão mais visível. O seu Mayor, Rudy Giuliani – que se tornou mundialmente conhecido com a tragédia de 11 de Setembro e a forma enérgica como reagiu à catástrofe – foi um dos principais protagonistas desta “regeneração urbana”. O Compstat – departamento policial com uma abordagem activa e preventiva – foi o instrumento que esta cidade necessitava para fazer descer a criminalidade. Facto apontado como a principal causa da decadência de Nova Iorque. Em seis anos de implementação, a criminalidade geral caiu 50% e o assassínio para 1/3. Atacar a criminalidade permitiu o ressurgimento da actividade económica e o voltar de população para as zonas centrais da cidade. È obra.
A ideia de “cidades ingovernáveis”, que se espalhou durante as décadas de 70 e 80, tem vindo a ser abandonada graças a uma nova metodologia assente numa hierarquia de valores diferente. A actividade económica pode não florescer se o crime for impeditivo, por exemplo, por muito dinheiro que se gaste em recuperação urbana.
A não perder.
Da Quetzal Editores.

Esperança



Este é um belo quadro de Gustav Klimt, pintado em 1903.
Chama-se Esperança I.
Nesta imagem o pintor mostra-nos a nudez alva de uma jovem mulher perplexa mas confiante. O Simbolismo do fundo negro povoado de figuras grotescas, vencidas, mas presentes, sempre, em contraste com a branca e frágil figura. Eis a maternidade na sua essência. A força da vida versus o medo que ela provoca. A vontade de dar “à luz” transporta consigo o receio. No entanto, não é isso a esperança?
Nesta época, o valor por esta pintura transmitido traz-me algum conforto…

sábado, dezembro 18

Portalegre


Portalegre



Estive ontem em Portalegre. Portugal está incrivelmente mais acessível. Setúbal -Portalegre em menos de 2 horas estava lá. Sem acelerar e com nevoeiro.
Esta cidade a norte do Alentejo está fora de rota. Os grandes eixos do “desenvolvimento” não passam por ali. Sendo uma cidade do interior e estando fora dos caminhos de ligação a Espanha tem vindo a perder importância económica há décadas. A demografia confirma-o.
Esta cidade é atípica no panorama alentejano, pois situa-se no cimo de uma serra – S. Mamede. A fisionomia da cidade histórica é de alguma dignidade revelando uma certa opulência económica decorrente da sua vida rural. O crescimento da cidade durante o Estado Novo é seguro e integrado. A transição das colinas para a planície cresceu pior. Ainda não está consolidada, mas, pela morosidade e crescimento lento a que foi sujeita, por contingências históricas, ainda poderá recompor-se.
Cá está mais uma cidade do interior – já antes aqui me referi a Évora - em que a instalação do Ensino Superior não chegou como vector de desenvolvimento e simultaneamente para fixar população. Outros caminhos vão ter de seguir para se afirmarem como pólo regional.
Em termos gastronómicos o prato típico é bem razoável e a comida tem sabor “caseiro”. O sentido é literal. O restaurante onde comi, perto da Câmara Municipal, tinha cerca de cinco pessoas sentadas enquanto almocei. Quase em família. Em todas as situações podemos encontrar vantagens, é saber aproveita-las.

quarta-feira, dezembro 15

Previsibilidade e bom senso

A época que estamos a viver é estranha, nada do que é suposto acontecer, acontece. O presidente, em Junho, faz o que ninguém esperava, não dissolve o Parlamento. A meu ver bem. Reconduz um novo primeiro-ministro, mas dá a entender que este deveria manter a linha de rumo do anterior governo.
Este primeiro a primeira coisa que faz é mudar estruturalmente a orgânica do governo. Com todos os custos que isso tem na administração. Um atraso de meses entre a posse de um novo ministro e a nova aprovação da nova lei orgânica. De seguida, o primeiro-ministro fica instável com o problema da “legitimidade” pedida pela oposição. Tornando-se ele próprio no maior sintoma de instabilidade governativa, vendo-se na incubadora e mal tratado por todos, inclusive pelos seus, os tais “irmãos mais velhos” e restante família. Entretanto anuncia um “tempo novo” de que o orçamento do estado é o principal arauto.
O presidente resolve - a propósito de Chaves - então dissolver a assembleia, o que parecia inevitável, apesar do calendário não ser a melhor. O que o primeiro parece sentir como um alívio. Pelo menos passou a andar melhor encarado, menos acossado. Sorridente até. No entanto o presidente, pasme-se, quer ver aprovado este orçamento do estado. O principal instrumento político deste governo, aparentemente desgovernado. E por causa do aumento dos funcionários públicos. Despesa e não consolidação orçamental, como aparentemente defendia.
Não bastando o governo demite-se. A aliança não se faz, mas anuncia-se um acordo pós eleições no caso do PSD as ganhar.
Sinceramente, há alturas em que gostava de maior previsibilidade. Ou será apenas bom senso…

terça-feira, dezembro 14

Templo de Diana



Templo de Diana
Voltar a Évora é sempre um prazer. O “cheiro a Alentejo” é inebriante. Ter a possibilidade de comer uma verdadeira açorda, com bacalhau e ovo cozido retempera o dia, já de algum cansaço. Estando previsto mais, depois de almoço, soube a descanso merecido, a reencontro.
Atravessei a cidade a pé. Não só o centro histórico, mas para lá das muralhas. Évora cresceu bem. Cresceu devagar. Não foi sujeita ao crescimento avassalador das, actualmente denominadas, Áreas Metropolitanas. Dentro de muralhas é altamente compacta e densificada, como o são todas as grandes cidades históricas em Portugal. Mas fora destas cresce com espaço. Cheia de interstícios – deixados pelas propriedades ainda agrícolas, ou nem por isso mas apenas expectantes – entre os bairros. Todo o conjunto de casario é um bairro. Como toda a casa no campo é um “monte”. Estes bairros foram crescendo fora da “velha” urbe, mas vão-se adoçando ao longo de vias com dimensão contemporânea, continuando a construir a cidade. Renovando-a.
O que preocupa é a densidade, ou a falta dela. Os números não mentem e revelam uma diminuição constante da população escolar. Não estou a falar da universitária, mas do ensino básico e secundário. Começa a estar provado que não basta a universidade para puxar e manter população. São necessários outros “motores” de desenvolvimento para as cidades médias do interior. Estas, mesmo as patrimoniais, como é o caso, não vivem só de edifícios. Os seus habitantes são a sua maior riqueza. Sem eles fica só “ruína”.
Passar pelo templo de Diana deixa-me sempre uma perplexidade: é belo, mas os Romanos já não habitam lá…

sexta-feira, dezembro 10

Desperdício

O desperdício é coisa que me aflige. O desperdício de dinheiros públicos mais ainda. Ainda mais de forma impune. Vem isto a propósito de uma entrevista dada pelo Dr. Eugénio da Fonseca, o Presidente da Cáritas Nacional e da Cáritas Diocesana de Setúbal, (no Jornal de Setúbal de 6 de Dezembro). Refere-se, este, ao impressionante esbanjamento de dinheiros públicos - no caso do Convento de São Francisco, em Setúbal – sem qualquer tipo de consequência. Lembro que este convento foi alvo de uma intervenção – ou antes, o terreno que lhe é contíguo, porque no edifício do convento, ainda nada foi feito para a sua recuperação – no sentido de retirar os seus ocupantes – realojados pelo programa PER – e de fazer um novo Colégio da Casa Pia. Ao tempo o primeiro-ministro era o Eng. António Guterres. No entanto, só recentemente foi, parcialmente realizado. Só nesta altura se percebeu que as instalações produzidas não servem para o propósito pretendido. Apesar de ser um projecto de raiz. No entretanto gastaram-se milhares de euros e, provavelmente, gastar muitos mais para o poder por a funcionar. Caso muito estranho. Mas apesar disto tudo, que eu tenha conhecimento, nenhum relatório da Segurança Social foi realizado para apurar o responsável, ou responsáveis, por tamanha irresponsabilidade. Agora está-se a tentar “encontrar” uma nova função para este novo elefante branco. Recordo que neste caso me parece ser a responsabilidade não só politica mas também técnico/administrativa. Mas nada disso importa. O que está feito, feito está, especialmente porque o dinheiro é de todos. Porque se fosse dos que tomaram esta decisão, provavelmente não acabaria assim.
Para corrigir estes procedimentos não é necessário aprovar nenhuma nova lei, basta vergonha e responsabilidade. E passar a entender os dinheiros públicos como nossos e não “deles”.

quinta-feira, dezembro 9

Mudar de Vida

A vida é surpreendente. Sempre mais do que possamos pensar. Mesmo na mais rotineira das existências ela não deixa os seus créditos por mãos alheias. E uma vez por outra, lá prega uma partida, e o que pensávamos seguro, de repente deixa de o ser. Por esta razão – e por humildade metodológica – tenho sempre algum pudor em análises determinísticas. Tenho, por isso, alguma cautela com o excesso, próprio de tempos de viragem, mais condizentes, estes, com a lógica do seguidismo imediatista que com a reflexão. Necessariamente irmanada pela indispensável calma e ponderação individual.
Tal como no nosso percurso individual, esta intervenção exterior - a que chamei vida - apresenta-se também na dimensão colectiva.
Vivemos actualmente num tempo surpreendente - não é o mesmo que interessante - mas cheio de surpresas inquietantes. Julgávamo-nos plenamente “integrados” nesta Europa, já comodamente instalados. Eis senão quando, nos apercebemos que no essencial ainda muito está por mudar.
Penso que estamos – no nosso caminho enquanto nação – numa nova fase de crescimento. Sem o percebermos muito bem, procuramos decidir a que universo de referências queremos pertencer – ao Europeu ou ao Africano.
Talvez hoje, e após muito séculos, estejamos de novo confrontados connosco próprios. Sem álibi, nem lugar para onde fugir. Estamos obrigados a decidir o que pretendemos fazer.
Pertencer à Europa foi uma viragem histórica sem precedentes. Mas, enquanto inicialmente, se encarou como uma nova forma de enriquecimento fácil. Agora estamos a perceber que é um caminho mais duro. Definitivo, ou pelo menos longo e aparentemente sem retorno. Gostamos do conforto mas custa-nos organizá-lo. Queremos ser “civilizados” e cumpridores, mas sempre que isso não nos afecte. Porque quando nos toca a nós é sempre “injusto” e tendencioso, “então e eles”? E “eles” são sempre os outros: os que são poderosos; os políticos; os ricos; os famosos; etc.
O esforço produzido até agora não me parece estar em causa. Mas penso que estamos num caminho sem volta. Temos que mudar. E mudar colectivamente. Uns com os outros e dentro do nosso país. Não nos resta mais nada senão, melhorar as nossas fraquezas e os nossos defeitos. E isso dói. No entanto, quanto mais longa for a demora, para corrigir o que está mal, mais tempo temos que sofrer.
O Fado é uma das canções nacionais, mas sinceramente, não julgo que sejamos masoquistas.