sábado, janeiro 21

As Presidenciais

Sobre o que se passou até agora e as consequências do próximo domingo dia 22 entendemos dizer o seguinte:

Soares, não resistiu à sua própria impulsividade e resolveu tentar evitar o “passeio na avenida” – pelo qual parece estar prestes a ser atropelado – antevisto por si, a Alegre em plena época estival. Na nossa modesta opinião, este velho leão a quem tanto devemos – a democracia de tipo ocidental e a entrada na Comunidade Europeia, não são coisa pouca – não resistiu ao seu grande ego e à derradeira tentativa de manter o seu poder e a sua confortável e tradicional influência. Com estas eleições perde tudo. Só não perde a sua dimensão Épica. Um guerreiro morre sempre no campo de batalha. O lugar de “senador” ou observador não pertence a este género. Sem querer, Soares perde o PS e o que a partir dai pensou assegurar, mas ganha um final tragicamente humano indispensável à sua derradeira consagração histórica.

Alegre com todo o seu brilho aristocrático e encanto marialva, não conseguiu mais do que confirmar e difundir seu próprio ego mascarado de “cidadania” e “patriotismo” romântico. Leva consigo, o prazer íntimo, de ter derrotado o seu próprio “aparelho” e o seu velho companheiro de tantas lutas. Não é muito, mas para si próprio, pode ser um bom epitáfio político.

Louçã parece cada vez mais a sua própria caricatura. O que poderá vir a seguir. Garcia Pereira é já o “jurássico” do PREC. Louçã ficará como o arauto da esquerda pós moderna ciclicamente reciclada com temas cada vez menos fracturantes e interessantes.

Jerónimo de Sousa é o reencontro do partido proletário consigo próprio. Longe da “aura” mítica e distante de Cunhal, este operário representa o comunismo de rosto humano. O seu último reduto, até ao último óbito.

Cavaco sem muita expectativa mas com muito profissionalismo – técnico ou politico - leva o seu objectivo a bom porto. Ganhar estas eleições e permitir ao país a possibilidade de mudar para melhor. No seu ponto de vista está claro. Pensamos que irá conseguir passar à primeira. E se for isto a acontecer Sócrates terá condições para governar mais quatro anos. A não ser que voluntariamente desista ou fuja. O que parece ter virado moda nos últimos primeiros deste país. No entanto, a teimosia mal disposta do actual não o prognostica.

Sócrates parece ser – se assim o entender – o grande vencedor desta batalha. Consegue de uma única assentada matar dois coelhos. Ao promover Soares a candidato perdedor oficial sem permitir que Alegre o fosse destrói os seus únicos adversários internos e as suas respectivas “famílias” politicas. Há quem pense que isso vai dar muitos problemas ao PS pós presidenciais. Mera exaltação de espíritos havidos de drama. Sócrates continuará a governar tranquilamente, agora firme e seguro na estabilidade, promovida a valor presidencial, por Cavaco em Belém. Mudar Portugal com estabilidade politica é o único fermento ideológico de Cavaco.

Desenganem-se os que pensam serem outros os seus propósitos ou outras as consequências deste acto eleitoral.

Bom domingo.

5 comentários:

Ruvasa disse...

Viva, Paulo!

Sim, sou levado a concluir que, aconteça o que por aí se presume que aconteça, Sócrates será o maior ganhador. Ganhador, não vencedor, uma vez que, dando apoio a quem deu e retirando-o a quem retirou, jamais pode alcandorar-se a vencedor.

Livra-se, pois, de dois impecilhos e suporá que a vida lhe sorri. O que não acontecerá, pois o que se vai ver é um frente-a-frente entre dois teimosos arrogantes de alto gabarito, cada qual a querer mandar mais do que o outro.

Anote, desde já o que lhe digo, neste dia, caro Paulo: ao princípio tudo serão rosas frescas e laranjas doces, mas o confronto é inevitável. Só não existirá se um deles mudar de feitio - o que não vai acontecer - ou o céu cair em cima de todos nós, antes disso. Fatal como o destino.

Abraço

Ruben

easy disse...

Subscrevendo inteiramente o comment anterior, aqui deixo os parabéns pela análise feita no post e um abarço de um novo frequentador deste espaço.
Se puder, dê uma saltada "lá a casa" e comente.
1 abraço
easy

Arrebenta disse...

Na recta final da Campanha Eleitoral desta 1ª Volta, Cavaco Silva responde ao Questionário de Proust

Qual a sua ideia de felicidade perfeita?
Um Governo, uma Maioria, um Presidente.

Qual é a personagem histórica que mais admira?
EU

Qual a sua característica mais marcante?
Vaidade e Arrogância.

Qual a característica que mais deplora nos outros?
Humildade e Compreensão.

Qual sua característica mais deplorável?
Não ter os músculos do Governador da Califórnia, para resolver isto como realmente queria...

Qual a sua ocupação preferida?
Fazer de sonso.

Qual a qualidade que mais admira num homem?
A ambição

E numa mulher?
Que se ponha ao serviço da ambição do homem dela.

Quais os seus escritores favoritos?
Não sei, porque raramente consulto a ficha editorial do “Financial Times”

Qual é o seu lema?
Uma mentira muitas vezes repetida começa a parecer uma verdade.

Com qual figura histórica mais se identifica?
EU

Qual a sua maior extravagância?
Fingir que não sou eu.

Qual a sua viagem predilecta?
Boliqueime-Lapa

O que mais valoriza nos amigos?
Que se ponham todos ao meu serviço, enquanto preciso deles, e que depois não reclamem, quando os afasto.

Qual o seu herói preferido na ficção?
Pinóquio.

O que lamenta não ter feito?
Não ter limpado a tempo o sebo a… Desculpe, não posso responder a isso, nesta fase da Campanha Eleitoral.

Qual o maior amor da sua vida?
Eu

Onde e quando foi mais feliz?
Lisboa, entre 1985 e o Dia do Levantamento da Ponte.

Qual a sua maior realização?
Ter conseguido tirar 3 cms. de alcatrão na camada de desgaste de todas as estradas deste país, e ter assim tornado algumas pessoas bem mais ricas e mais felizes.

Mentir, às vezes, é necessário?
Sempre.

Se pudesse voltar à vida como outra pessoa, quem seria?
Eventualmente, o Dr. Oliveira Salazar.

Como gostaria de morrer?
De aqui a 100 anos, como ele, na cadeirinha, mas sem saber que estava a morrer.

Qual pergunta falta fazer?
Vai mesmo haver sangue.

E qual seria a resposta?
Q.B.

Paulo Pisco disse...

Caro Ruben.
É inevitável que algum atrito tenha de existir ao longo do tempo. Mas não é desse "balanço" que vive o nosso regime.
Penso que dois obstinados se podem respeitar. Apesar de naturalmente poderem ter as suas divergências.
Vamos ver...

Anónimo disse...

Meu caro,

Metade do PS mobilizou-se ao lado de Manuel Alegre, a outra metade entreve-se com as peças do trem de cozinha que lhes calhou e maltrataram Mário Soares...

Assim sendo, Alegre não derrotou o aparelho, porque ele próprio tem lugar vitalício nesse aparelho e contou com a preguiça e resignação de muitas estruturas e dirigentes do PS. Felizmente, Mário Soares não é homem para se deixar derrotar desta forma e podemos contar sempre com ele!