domingo, fevereiro 11


O tom geral dos resultados foi, relativamente, cordato. O “sim” ganhou de forma expressiva, apesar da enorme abstenção.

Amanhã começa o que verdadeiramente interessa, lutar pelas melhores condições de vida. De todos. Recomendando, por parte de alguém que votou não, o respeito da dignidade de todo o ser humano. Esperando com sinceridade que em Portugal o aborto se torne residual e que o serviço nacional de saúde responda com eficácia aos objectivos de quem precise de recorrer a esta prática extrema.

Hoje, na nossa sociedade, abastada, envelhecida e sem esperança no futuro, a urgência e o mais importante é promover o nascimento de mais crianças.

Sentimos, por isso, que Portugal chegou tarde e, eventualmente, sem necessidade a esta circunstância da “modernidade” europeia. Como defendem os que confundem mudança com melhoria. Num futuro mais próximo do que possamos imaginar estaremos a discutir outra realidade. Nem que seja por necessidade absoluta de sobrevivência futura necessitaremos de mais nascimentos. E talvez ai volte-mos a por a “fronteira” no sítio que nos parece mais correcto. No primado da existência como algo de inviolável. Até lá só resta mudar a concepção “materialista” da sociedade em que vivemos.

Esperemos que tudo isto não tenha servido só para ajustar contas antigas…

Amanhã nasce de novo o sol. E por isso haja esperança.

3 comentários:

Luís Marvão disse...

"Hoje, na nossa sociedade, abastada, envelhecida e sem esperança no futuro, a urgência e o mais importante é promover o nascimento de mais crianças."
Elucida-me, Paulo.
O que tem isso a ver isso com o fenómeno do aborto? Fazes eco de uma confusão comum entre muitos, pensar que o aborto tem relação com o declínio demográfico europeu (e neste caso português). Não tem, nem nunca teve. Assim, ainda acabas a proibir a pílula, a ultrapassar a ICAR pela direita ;) E fazes eco de uma certa direita, assaz iliberal, que se dá melhor com o ultramontismo católico do que com o livre-arbítrio dos indivíduos.
Mas como estas coisas são do domínio societal e civilizacional, sem retorno, como muito bem diz o teu camarada de partido JPP, vais ter que aprender a viver com a livre escolha das mulheres neste domínio.

P.S. Olha que essa tua direita ainda acaba em seguro de vida do eng. Sócrates, cuja integridade política contrasta com o comportamento de Marques Mendes, politicamente vergonhoso e desonesto.

Paulo Pisco disse...

Caro Luís

Por regra não sou favorável a proibições, a não ser quando a sua ausência pode colidir com algo de essencial.

O livre arbítrio existe sempre, por isso e apesar das leis, existe gente nas cadeias.

A falta de confiança na nossa espécie, que tanto caracteriza a nossa sociedade ocidental, é responsável em grande medida, pela nossa queda demográfica. Que é um facto. Lutar pela nossa sobrevivência, enquanto seres que têm uma civilização específica, foi sempre um objectivo de todas as civilizações. Porque não poderá isto ser questionado na nossa? Só porque o primado do desejo individual se tornou maior do que tudo, uma nova “vaca sagrada”?

No campo das ideias e da organização da sociedade é importante continuar a defender a nossa sobrevivência, enquanto sociedade, e não só enquanto indivíduos. Não te parece? Termos descendência é a forma mais provável de prolongarmos aquilo em que acreditamos.

Se isto é direita ou esquerda estou pouco interessado. Trata-se tão só bom senso, na minha humilde opinião. Que nestas matérias não é tão “cheia de si” quanto a de outros. Tenho sobre tudo isto dúvidas, mas penso que se olharmos para outras culturas percebemos que a sobrevivência da espécie, apesar de tanta “fome e miséria”, continua a ser algo de importante. Nós discutimos, apesar da contracepção, o aborto como se fosse algo de fundamental, hoje. Peço desculpa, mas não me parece.
Mas os próximos anos estarão ai para vermos o que a nossa sociedade de velhos reclamará?
Um abraço deste teu amigo que dúvida pensando e escuta duvidando.

Quanto ao Marques Mendes ….

Luís Marvão disse...

Paulo,

Sobre o livre-arbítrio: http://pt.wikipedia.org/wiki/Livre-arb%C3%ADtrio
Parece-me que há aí um equívoco. O livre-arbítrio é o que há de mais nobre em nós, mas "o teu campo" escolheu coarctar esse direito e impor tutelas (a ICAR, as tais comissões de ética" nos hospitais").
Bem, mas isso é passado, saíram derrotados no dia 11 de Fevereiro.
Agora, não me respondeste sobre a suposta relação do aborto (que é imemorial nas sociedades humanas) com o declínio demográfico do Ocidente. Em países de outras latitudes ou hemisférios, e com legislações extremamente restritivas, as taxa de abortos são muito mais altas dos que as verificadas na Europa Ocidental. Aceito discutir o declínio demográfico europeu (embora o teu tom seja um pouco apocalíptico, Paulo), mas não percebo o que tem a ver com o aborto, que é um fenómeno tão antigo; não foi inventado pela modernidade. Sempre existiu e existirá (não é possível eliminar a contingência da vida) . Existem, sim, políticas que podem reduzir a sua expressão. Mas não é seguramente pela via da repressão e recusando considerar a esfera de decisão da mulher.

Um abraço

P.S: Desculpa lá o meu tom, mas custa-me ver que tenhas alinhado pela defesa de uma lei que pune a mulher com pena prisão; por seres moderado e até digno representante de uma direita mais arejada. Custa-me ver que mesmo em pessoas que têm 1 papel importante na renovação venham ao de cima as velhas atitudes. Devias ler o artigo do Vasco Rato no DN de segunda-feira. É que acabas a dar razão a um articulista do Le Figaro , que disse que a direita portuguesa era a mais estúpida do mundo.