segunda-feira, setembro 3

A Queda de Roma e o fim da Civilização



Respondendo a um desfio de JA feito há mais de um mês, vou falar sobre 5 livros. Não os cinco mais marcantes da minha vida. Até porque me parece sempre uma tarefa demasiado difícil ou mesmo impossível, mas só aqueles que tenho lido nos últimos tempos.
“A queda de Roma e o fim da civilização” de Bryan Ward-Perkins, (editado pela Aletheia).

Este livro, relativamente pequeno (cerca de 300 paginas), para tão grande tarefa e já tentada por tantos. O autor, de um rigor e clareza extraordinários, coloca desde o início do livro o leitor face ao problema abordado. Sem “peias” nem omissões. O que torna o assunto inteligível a qualquer leitor, mesmo não especialista na matéria. Apesar de ser por vezes exaustivo na “procura da prova” histórica que legitima e informa as suas posições. Sempre com uma abordagem muito “cientifica” na procura da verdade. Nunca perdendo de vista a sua própria formação de arqueólogo coloca ai muitas das suas linhas de pesquisa.
No fundo Perkins contraria as novas “correntes históricas” europeias que colocam a transição do Império Romano do Ocidente como uma mera «acomodação» entre os povos bárbaros do norte da Europa e os habitantes do seu interior. A “eurofilia” paga por Bruxelas, na tentativa de criar uma nova identidade, já não centrada na construção do estado nação mas na Europa, é rebatida com factos pelo autor.
A queda de Roma representou o desmoronar de toda uma civilização, não só do ponto de vista cultural, mas material. Sendo o autor arqueólogo é através dos artefactos que este nos dá uma visão do que foi a decadência do “nível de vida” material de todo um império que vivia já num elevado estado de sofisticação. E este só é possível com uma especialização e um comércio muito intensivo. Que sendo quebrado provoca o desmoronar de todo o saber, inclusive no plano tecnológico, remetendo toda uma população para o limiar da sobrevivência. Em alguns aspectos certas zonas da europa só voltam ao mesmo “nível” mais de mil anos depois. Mesmo do ponto de vista demográfico.

O livro torna-se muito pertinente para qualquer um que se interroga sobre o mundo onde vive e de como esse mundo pode ser “circunstancial”. Acabamos com a última frase do livro para o ilustrar. «Os romanos, antes da queda, estavam tão certos como nós estamos hoje de que o seu mundo continuaria sempre substancialmente inalterado. Estavam errados. Seria sensato não repetir a sua complacência.»

Muito interessante.




Quadro que ilustra a decadência de Roma que conduziu à sua queda, segundo a perspectiva de alguns historiadores ao longo da historia.

Museu d'Orsay

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