sábado, março 22

Porque será que todos querem arranjar culpados?



Olhando para o que está escrito num artigo publicado hoje no Público (P2) sobre os comentários ao vídeo colocado no You Tube, sobre o “incidente” ocorrido na Escola Secundária Carolina Michaëlis, no Porto, ocorreu-nos perguntar:

Porque será que todos querem arranjar culpados?

Os Professores culpam os Pais, o Ministério, a Ministra, o Sistema, o Novo Estatuto do Aluno, “alguns Professores”, os Alunos, etc.

A sociedade culpa os Pais, “alguns Alunos”, os Professores, o Sistema, o Ministério, a Ministra, o Novo Estatuto do Aluno, o País.

O Ministério e o Governo culpam, os anteriores governos, especialmente o seu imediatamente anterior, os Professores, ou finge não existir razões para tanto alarme.

Os Partidos da Oposição culpam, o actual Governo, a Ministra, o Ministério, o Novo Estatuto do Aluno.

Os País culpam, os Professores, o Sistema, o Ministério, a Ministra, o Novo Estatuto do Aluno, “alguns alunos”, etc, etc…

Quando se anda sempre à procura da culpa significa apenas uma coisa: ninguém quer assumir a sua. Ou seja, mandando a responsabilidade para cima de alguém, ficamos todos mais aliviados. Não obrigando ninguém a assumir a sua quota-parte da responsabilidade, todos ficam bem, mas nada se resolve. Ficando tudo na mesma.

Só vemos alguma hipótese séria de tentativa de solução do problema da disciplina, quando todos os envolvidos, na medida das suas responsabilidades, procurem saber o que cada um pode fazer para resolver o problema.

Se continuarem a procurar a culpa, ela por cá, segundo dizem, “morre sempre solteira”.

2 comentários:

Anónimo disse...

Em relação a "culpados" se os há ou não, não sei, mas mais sei que não apontar as verdadeiras causas agrilhoa-nos irremediavelmente para o círculo vicioso no qual temos andado quase patologicamente.
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Lê se fizeres favor:


« paz necessária a uma guerra inútil



Gabriel Mithá Ribeiro

O entendimento recente entre o Ministério da Educação e os sindicatos do sector (formalizado a 17.04.2008), em si, não merece comentários de maior. O que preocupa é o facto de, desde que a equipa ministerial dirigida por Maria de Lurdes Rodrigues tomou posse em Março de 2005, as questões laborais do corpo docente – entre elas temas como a assiduidade, a progressão na carreira ou a avaliação dos professores – terem assumido papel central na orientação das políticas educativas. Não se tratando de matérias irrelevantes, é secundário saber se os professores portugueses ganham bem ou mal, se são ou não bem avaliados, se trabalham ou não mais horas na escola por semana do que os outros docentes europeus do ensino não superior. A paranóia nacional reside no facto do sistema ser movido por uma espécie de demência colectiva que sistematicamente sobrevaloriza o acessório e ignora as questões de fundo. É por isso que no ensino temos sido incapazes de encetar transformações profundas.

Para que se saiba, os dois maiores problemas do sector que se arrastam há mais de uma década são a indisciplina e o facilitismo. Sobre eles paira no discurso dos responsáveis (ministeriais, sindicais, gurus ideológico-pedagógicos e classe política em geral) uma tendência esquizofrénica, uma quase negação do real que se vai tornando patológica. E quando a discussão desses problemas emerge, no geral manifesta-se de modo inconsequente ou surge arrastada por questões secundárias que o sistema erradamente transforma em essenciais. É muito difícil provar que as questões socioprofissionais dos professores estão no âmago das fragilidades do sistema de ensino em Portugal. Porém, a experiência de sala de aula prova à saciedade que esse era talvez o último aspecto que deveria preocupar quem não fosse pouco competente ou muito cínico na abordagem das questões educativas.

Será que não se percebe há décadas que a má qualidade das aprendizagens a Matemática, Português, História, Ciências, etc., etc., etc., tem a ver com a indisciplina em sala de aula? Será que não se percebe há muito tempo que um número máximo de quase três dezenas de alunos por turma é um absurdo? Será que a sociedade portuguesa não tem de ser confrontada com uma discussão sem paninhos quentes sobre o papel estratégico dos exames nacionais em final de ciclo (1º, 2º e 3º) a um número alargado de disciplinas? Será que nos temos de conformar com o contributo para o facilitismo que é a classificação dos resultados escolares com base nos níveis de 1 a 5? Será que temos que aceitar os absurdos curriculares que sobrecarregam os horários dos alunos, consomem parcelas significativas do orçamento para a educação que saem dos impostos pagos por todos nós e que degradam a qualidade do trabalho nas escolas, como a «Área de Projecto», a «Formação Cívica» ou o «Estudo Acompanhado» que fazem parelha com horas avulsas distribuídas em excesso por determinadas disciplinas do secundário? Será que nos temos de conformar com a paranóia que nas últimas décadas hipervaloriza o Português e a Matemática e desvaloriza em excesso disciplinas como a História, as Ciências, a Geografia, a Química e a Física, para já não falar no caso da Filosofia, por parte de quem nos convence da sua pretensa visão integrada da educação? Será que temos de assistir a este esvaziar quase louco do Conhecimento (com «cê» grande)? Por aí fora.

Tudo isso existe e deu sinais há muito, muito tempo. E o que tivemos? Um conflito que se arrasta desde 2005 por causa do Estatuto da Carreira Docente, com momentos de histeria, com o envolvimento de muitos opinadores e da opinião pública em geral, para aparentemente acabar em acordo entre o Ministério da Educação e os sindicatos, acordo que deixa tudo mais ou menos como estava antes de 2005. Esgotámos, uma vez mais, as energias reformistas sem tocar nos problemas de fundo. Pior do que isso é o facto de os erros políticos terem sido tantos, a falta de respeito pela dignidade dos profissionais da educação foi levada a limites quase inimagináveis, que o que pode sobrar é uma maior legitimidade dos professores para resistirem à mudança quando ela era e é indispensável. E quem é responsável por isso? Só falta dizer-se que são os professores de sala de aula que há décadas aturam tudo isto.

O que é evidente desde 2005 é que uma agenda reformista errada imposta unilateralmente pelo governo levou a reboque uma opinião pública e uma opinião publicada durante muito tempo quase acríticas e, até agora, incapazes de mudar o enfoque dessa agenda. O que tem sido ligeiramente diferente em relação à longa história passada é que, por uma vez, não creio que fosse exigível uma outra postura aos sindicatos dos professores. Há muito que sou crítico do movimento sindical, entre outras razões, por sistematicamente extravasar os domínios da sua competência e pela fraca capacidade em mover-se, enquanto força social, com maior autonomia política e financeira. Todavia, isso não resulta apenas da postura do movimento sindical, mas antes da estrutural incapacidade do sistema em separar as questões laborais do corpo docente das outras questões de fundo, aquelas que são verdadeiramente decisivas e que mais afectam a qualidade do trabalho em sala de aula. Há nisso graves responsabilidades por parte dos partidos políticos, no geral incapazes de produzir pensamentos e estratégias consistentes que traduzam a sua visão do sector.

A verdade é que entre 2005 e 2008 os sindicatos dos professores têm actuado naquele que é o seu espaço de maior legitimidade precisamente pela elevada e errada relevância que o governo conferiu às questões laborais. E tanto maior a legitimidade sindical quanto mais o governo socialista recorre a um tipo de actuação com muitos traços impróprios de sistemas de negociação social de uma democracia adulta na qual os seus responsáveis, gostem ou não, devem respeitar as instituições existentes como os sindicatos.

O problemático é ainda não se estar a aproveitar a actual conjuntura para clarificar, por um lado, o que é matéria sindical e, por outro lado, o que é matéria de ensino propriamente dita. A última está relacionada com assuntos que preocupam, em simultâneo, professores, alunos, encarregados de educação, governantes e cidadãos em geral. Para os próprios professores o que pode sobrar para o futuro é continuarem a correr o risco de voltar a ter a pluralidade em que assenta a sua identidade profissional – pela diversidade de origens sociais dos professores; pela diversidade geográfica de onde são naturais; por uns se identificarem tanto com o «país moderno e urbano» e outros com o «país rural e profundo»; pela diversidade de áreas académicas e de níveis de formação; pela diversidade de filiações religiosas, partidárias ou sindicais; pela sua dimensão em número de indivíduos; pela diversidade de interesses e de perspectivas sobre a profissão; entre outras características – o risco é essa diversidade continuar afunilada de modo muito redutor na representatividade sindical. O sindicalismo tem de ser visto apenas como uma entre diversas possibilidades do corpo docente se expressar e ser representado quer junto da tutela, quer tendo em conta a restante imagem pública que os professores transmitem. Seria importante que as mais diversas sensibilidades da classe docente ganhassem formas estruturadas de representatividade, inclusivamente parte delas com aproximações políticas explícitas.

Um dos dramas da educação é não se perceber que a dimensão dos problemas, hoje e no passado, é acima de tudo política e ideológica. Ao omitir-se essa dimensão por uma espécie de obsessão social que vê a cada passo o pecado na política, o resultado é a política acabar por se manifestar no ensino por vias perversas porque encapotadas. Como se a política não pudesse ser uma actividade nobre e como se não percebêssemos que a fragilidade dos partidos políticos não se traduzisse em consequências prejudiciais para a vida de todos nós, dado que essa fragilidade implica o reforço do poder autoritário do Estado e a consequente diminuição do espaço para a nossa liberdade individual. No ensino, a manifestação perversa da política tem surgido, entre outras formas, umas vezes relacionada com conotações ideológicas evidentes naquilo que se designa por «pedagogia» ou por «ciências da educação», outras vezes surge associada ao facto de a tendencial neutralidade da ciência aparecer mesclada com propósitos ideológicos demasiado rasteiros que nada têm do pluralismo próprio de uma democracia. O último aspecto é visível quer nas estruturas curriculares, quer nos programas escolares, quer na forma como eles são transmitidos ou como se processa a avaliação do trabalho dos alunos, quer ainda no tipo de relação professor/aluno que, em maior ou menor grau, condiciona os modelos de conhecimento académico e atitudes cívicas que compete às escolas fomentar.

Se é impossível ser-se politicamente asséptico no ensino (e ainda bem!), pior mesmo é quando não temos (ou fingimos não ter) consciência da intrínseca dimensão política e ideológica das questões da educação. A esse nível, os que merecem maior desconfiança são precisamente aqueles que defendem, por ignorância ou por pressão para a manutenção do statu quo, que na educação não há política ou, pior ainda, defendem que na educação não deve haver política. Essa é uma tentação dos regimes e das mentalidades pré ou anti-democráticas que em Portugal, no domínio do ensino, se estão a prolongar muito para além do Estado Novo.

Abrir o sistema de ensino ao pluralismo (pedagógico, político, ideológico, ao nível dos modelos de organização institucional), isto é, proporcionar espaço às diversas sensibilidades sociais, significaria ultrapassar décadas em que as políticas educativas têm sido decididas por um trio minúsculo de iluminados assente nos governantes da educação, na elite sindical e nos «cientistas da educação»/«especialistas», com uma ou outra variante como os pretensos representantes dos pais. Gostava que este fosse o momento de romper com esse vício do sistema, dado que o que está em causa acaba por condicionar de forma directa ou indirecta o projecto de sociedade que tem implicações na vida de todos nós.

Termino com uma ideia: os professores de sala de aula (e não os outros, que também os há nas escolas) constituem das classes socioprofissionais mais oprimidas. E quem os oprime não são uns abstractos patrões, mas aqueles que, não trabalhando nas salas de aula, mais enchem a boca com expressões como «defesa da liberdade na escola inclusiva» cujo produto final não tem sido mais do que a menorização da dignidade dos professores.

Gabriel Mithá Ribeiro
Professor e investigador

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Um abraço Paulo

RUI SILVA

Paulo Pisco disse...

Caro Rui, muito obrigado pelo texto.
GMR tem razão em alguns aspectos, noutros, reconheço, tenho sempre alguma dificuldade em compreende-lo, por nunca concretizar o que critica. Seria uma longa prosa comentar tudo o que GMR se refere.
Mas relativamente às áreas curriculares não disciplinares estou completamente de acordo, apesar de saber que estavamos no início da reforma quando este governo tomou posse.

Um abraço