sexta-feira, março 14

Dividido mas solidário



Já vai quase uma semana sobre a “marcha dos professores” em Lisboa, após duas semanas de marchas em várias cidades por todo o País. Ainda aqui não falámos sobre este assunto mas é um dos temas que mais nos tem ocupado a atenção possível entre os diversos afazeres. No entanto, e a pedido de várias famílias, cá vai o que nos ocorre dizer sobre esta matéria:

Foi das situações em que nos sentimos mais divididos. Se por um lado, estamos de acordo que a forma, e por vezes o conteúdo, de algumas “reformas” na Educação (assim como de outras áreas da governação) estavam a ser mal conduzidas, por outro, consideramos indispensável que estas se realizem. O País não pode continuar bloqueado, sem realizar o que é indispensável para melhorar. Na Educação como em muitos outros domínios.

Por exemplo, a Avaliação é importante, não só para a profissão de professor, como para todos os Sistemas, incluindo o de Ensino. Mas mandar Avaliação para cima dos professores não, só por si, a resolução de todos os problemas. E é mesmo duvidoso que seja de alguns dos que se pretendem, como a diminuição do Abandono. Uma má Avaliação pode ser um factor de fracasso de qualquer sistema e não o seu sucesso. Tudo depende…E a proposta pelo Actual Ministério é deveras duvidosa a muitos níveis.

Começando por não se perceber qual o perfil do professor – ou do aluno - que se quer ter como exemplar. Caricaturando, mas nem tanto, um professor que seja rigoroso na avaliação dos seus alunos, pode provocar abandono aqueles que não acompanham o seu grau de exigência. Mas os seus alunos ficam a saber, mesmo o que tenham uma positiva sofrida. Enquanto outro que pretenda manter os alunos dentro da aula terá, necessariamente, estratégias diferentes. Poderá mesmo ter alunos que apenas frequentem as aulas sem aprenderem nada da disciplina em questão.

Para além do perfil desejado para o “bom professor”- ou “bom aluno” - a forma como se lançou este processo está a levar as escolas ao desespero. O que é, por si, uma consequência negativa de algo que se pretendia ser positivo. E o problema não é só a “complexidade” da Avaliação proposta mas a falta de critérios objectivos para a realizar. Sem se saber o que se pretende ter como “qualidade de ensino” como podemos seleccionar critérios?

Os aspectos críticos sobre a forma e o conteúdo das reformas, não são tudo. Somos favoráveis a que estas se realizem. Achamos mesmo que são indispensáveis. Mas não contra todas as pessoas. Só contra aquelas que apenas querem manter o seu pequeno quinhão de adquirido, sem se preocupar com a qualidade dos serviços ou do seu desempenho. Se não se lançarem as reformas de forma inteligente e inteligível não se fazem com ninguém. E estas não se realizam só no papel.

Outra dificuldade que sentimos foi a de temermos que a inflexibilidade governativa se agudizasse e conduzisse o actual executivo a um beco sem saída. Face a uma conflitualidade social imanente a inflexibilidade dos governantes revela falta de inteligência e mesmo impreparação para a governação. E se esta se vier a revelar vamos ter o futuro mais complicado pois o eleitorado não quererá repetir uma maioria absoluta tão cedo, o que torna as “reformas” mais difíceis de implementar, se não mesmo impossíveis.

Portugal necessita de recuperar alguns atrasos estruturais para ir de encontro aos seus parceiros europeus, para mudar vamos todos ter de mudar um pouco e para que isso aconteça temos de ter estabilidade governativa e politicas esclarecidas e reformistas. Mas para o conseguir temos de confiar uns nos outros, mesmo estando em campos diferentes. Como dizia o outro “ o que tem de ser tem muita força” mas pode ser com mais ou menos sofrimento dos envolvidos.

Por último, voltando à “marcha” pensamos que esta introduziu uma nova forma de lutar pelas causas laborais. De tal forma que os sindicatos foram obrigados a ir a reboque. Os professores viram, como classe, o seu prestígio aumentar pela forma como se manifestaram: Civilizada, ordeiramente e à sua própria custa (evitando prejudicar os alunos e suas famílias) marcharam pelo direito à indignação e à recuperação do merecido respeito profissional.




4 comentários:

Anónimo disse...

Caro Paulo, esta marcha "da indignação" (acho o termo correcto) ultrapassa em muito a mera reacção ao conceito de avaliação dos professores, tal como por má fé de alguns colunistas e, esttratégia desta equipa ministrial, querem fazer crer. A "indignação" tomou já contornos de "revolta", pois é o resultado de um acumulado progressivo de anos e anos de ataque à dignidade dos professores. Revolta, por terem sido atribuidas as culpas aos professores pelo descalabro a que chegou a educação em Portugal, sendo a via mais fácil e desonesta em termos intelectuais. Essa culpabilização disfarça outras culpas e responsabilidades politico-ideológicas de 30 anos de "regabofe pedagógico", de "eduquês obtuso e cego", de experiencias erradas, de instabilidade nas políticas educativas onde os 26 ministros que por lá passaram desde o 25 de Abril são sinónimo de isso mesmo. Paralelamente, aos poucos, a indisciplina e o facilitismo normativo conviveu e continua a conviver com uma absurda torrente legislativa cheia de interpretações e contradições constantes que nada estabilizam nem promovem a estabilidade.
Mudar por mudar, só para se dizer que mudou ou se fez uma reforma, não implica automaticamente a capacidade qualitativa dessas mudanças: as coisas podem mudar, mas nada nos diz que não mudam para pior!
Por isso, não enfio barretes. Conheço o sistema de ensino há quase 20 anos, para ter percebido os seus meandros e conhecer os seus vícios. Mas não enfio o tal barrete, quando sei que as políticas educativo-pedagógicas tiveram que ser sempre cumpridas (por força de lei) pelos professores e que estes, contrariamente ao que se quer fazer crer, sempre tiveram a sua autonomia pedagógica limitada.
Há maus professores...há sim senhor, mas também há maus médicos, maus jornalistas, maus advogados, muito maus políticos e muitos pais incompetentes. É um fenómeno transversal. Eu pergunto onde estão os dedos apontados aos sucessivos ministros e secretários de estado que passaram pelo ministério ao longo destes anos todos. Ouço Manuela Ferreira Leite e Augusto Santos Silva (apenas por exemplo) e fico pasmo em me parecer que estes nunca foram ministros da educação? Nunca tiveram responsabilidades? Ou o que existe, actualmente na educação, nunca foi da responsabilidade de ninguém? Nem do governo PS de Guterres onde Sócrates fez parte? Agora são todos impolutos e "virgens sérias"? E onde está aresponsabilização dos autores das sucessivas reformas pedagógicas que foram implementadas? Não existem? Não se sabe quem foram? Não têm responsabilidades? E principalmente não têm responsabilidades no descalabro a que isto chegou?
Eu tenho memória.
Por isso, avaliação sim...ESTA NÃO!

Cumprimentos Paulo

RUI SILVA

Paulo Pisco disse...

Caro Rui.
Inteiramente de acordo com tudo o que dizes, mas sabemos que face ao que se passa nem tudo pode ficar na mesma.
Partindo os dois do principio que a avaliação é algo importante para a melhoria dos sistemas ou serviços (principalmente àqueles que não são sujeitos à "regulação mercado"), ainda falta dar um passo importante por parte dos professores. Propor a sua avaliação.
Infelizmente não temos representantes sindicais que acreditem, ou aceitem a avaliação, como algo imprescindivel. E é verdade que, com essa atitude, muitos dos Portugueses pensam que os Professores não querem ser avaliados. Não te parece?

Anónimo disse...

Caro Paulo, a avaliação tem que existir e acho que até agora ninguém disse que não seria necessária! No entanto sabemos que a que é proposta por esta equipa ministrial, enferma de "má fé", além de ser vexatória e punitiva para os professores, torna-se incomportável de realizar tais são os meandros de "loucura burocrática" que contêm e a ignóbil edificação de conceito.
Sempre fui de opinião que essa avaliação deveria ser feita com simplicidade, bom senso e efectividade logística, assim como coerentemente razoável. Porque não "obrigar" os professores na sua mudança de escalão a realizarem duas acções de formação (uma de carácter cientifico e outra de carácter pedagógico) que seriam postas em prática nas aulas, com a supervisão de alguém da mesma área?
Mas não é isso que irá acontecer. O que irá acontecer é uma teia de "pedagogices avaliativas" baseadas em sondagens analiticas e um sem sentido de inutilidades demagógicas.
Avaliação sim...esta não! Simplesmente porque esta inverte os valores e o sentido da verdade e da justiça, cumprindo apenas a manipulação da "engenharia estatística" e servindo para quem dela quererá tirar proveito!
Estaremos cá daqui a uns anos para aferir a verdadeira "qualidade" daqui resultante! Toda ela está preparada para no futuro termos alunos básicos e professores acríticos e burocratas do "eduquês", onde o conceito de conhecimento não interesse para além do estritamente necessário.
Além do mais Maria Filomena Mónica foi lapidar no outro dia na SICnotícias relativamente a toda esta trapalhada.
Que o país está louco no capítulo da educação...já o sei há muito. Mas tanto? Não me tinha apercebido!

Abraço

Rui Silva

maria disse...

Paulo o seu artigo vale muito e faz bem mais pela evolução das mentalidades, neste país (onde ter opinião começa a ser crime), do que, todas as apreciações que apareceram nos últimos tempos, na comunicação social, destiladas pelos supostos “opinion makers” que fazem crer à “populaça” ter um saber genético no que diz respeito às coisas da educação e a tudo afinal.
Bem-haja.
De uma professora que durante 32 anos deu tudo o que tinha para dar a todos que fizeram o favor de a escutar e com eles igualmente aprendeu.