terça-feira, novembro 14

É recomendável...

O filósofo Fernando Savater põe o dedo na ferida de uma maneira clara acerca da crise de autoridade generalizada:

“Especialistas em educação reunidos na cidade espanhola de Valência defenderam hoje que o aumento da violência escolar deve-se, em parte, a uma crise de autoridade familiar, pelo facto de os pais renunciarem a impor disciplina aos filhos, remetendo essa responsabilidade para os professores.
Os participantes no encontro "Família e Escola: um espaço de convivência", dedicado a analisar a importância da família como agente educativo, consideram que é necessário evitar que todo o peso da autoridade sobre os menores recaia nas escolas."As crianças não encontram em casa a figura de autoridade", que é um elemento fundamental para o seu crescimento, disse o filósofo Fernando Savater."As famílias não são o que eram antes e hoje o único meio com que muitas crianças contactam é a televisão, que está sempre em casa", sublinhou.Para Savater, os pais continuam "a não querer assumir qualquer autoridade", preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos "seja alegre" e sem conflitos e empurrando o papel de disciplinador quase exclusivamente para os professores.No entanto, e quando os professores tentam exercer esse papel disciplinador, "são os próprios pais e mães que não exerceram essa autoridade sobre os filhos que tentam exercê-la sobre os professores, confrontando-os", acusa."O abandono da sua responsabilidade retira aos pais a possibilidade de protestar e exigir depois. Quem não começa por tentar defender a harmonia no seu ambiente, não tem razão para depois se ir queixar", sublinha.”
– de acordo com a Lusa.

O igualitarismo terá chagado longe demais? A ideia de democratização levada ao limite da igualização dos indivíduos terá de conduzir a uma sociedade sem hierarquia e sem valores?
Pensamos que sim.

Parte da destes problemas têm origem na profusão e aceitação das ideologias igualitárias, assim como a ascensão – e divinização – do mito da juventude como valor supremo, promovido pela chamada “geração de 60” e seus filhos directos. A mais directa consequência foi a perda de autoridade e a criação de uma falsa ideia de que país e filhos são “amigos”. Logo iguais. Certo? Não. Errado.

Os pais têm de ser pais. É isso que um filho espera deles. E ser pai ou mãe é ser responsável, orientador e educador. Os primeiros de todos. Depois vem a escola, o infantário a “rua”, os amigos, etc…

Sobre este tema recomendamos “A sociedade de irmãos” de Robert Bly (Sinais de fogo,1999) que desmonta os malefícios de uma sociedade em que todos, dentro da família, desempenham papeis equivalentes. Os adultos permanecem crianças e por essa razão as crianças deixaram de ter qualquer vontade de serem adultos. É recomendável ler…


O igualitarismo familiar, conjuntamente com a falta de tempo, ou pelo menos, de qualidade de tempo, dentro da família e a desresponsabilização face ao papel de cada um era suposto representar, gerou uma série de problemas que, hoje, afectam as nossas crianças e jovens. Logo todos nós.

As crianças e jovens vivendo “por sua conta” é um panorama assustador mas muito mais real do que se possa pensar. Para o ilustrar lembramo-nos do filme "Kids" de Larry Clark (1995) que retratava um conjunto de miúdos em bando completamente fora do mundo dos adultos. É recomendável ver…


A escola “levou por tabela” com a falta de autoridade na família e na sociedade e com sindroma do stress por falta de atenção e de tempo a que as nossas crianças estão sujeitas. Acentuada pela massificação e perda de importância face ao “mundo exterior”, assim como do próprio saber em si esta encontra-se numa situação muito delicada.

No entanto, e apesar de pensarmos ser tudo isto uma realidade, não pensamos que a escola deva ficar à espera que a sociedade mude. A escola tem a obrigação de resolver internamente e com os instrumentos que já tem à sua disposição, os problemas gravíssimos da disciplina que, por consequência, minam qualquer aprendizagem com o mínimo de qualidade. Com o apoio da familia, quando ele exista, obviamente.

O que acontece com a escola como actualmente está é: os que têm uma “família” safam-se os que não têm não. Ao aprenderem “por fora” os alunos bem enquadrados do ponto de vista familiar prosseguem os que estão entregues a si próprios, reprovam ou abandonam.

Não é a nossa ideia de serviço público. A escola deve ser um promotor de igualdade de oportunidades. E não um factor de selecção natural.

É recomendável assistir a uma aula, no ensino básico, para se perceber que não é ficção...




3 comentários:

rui silva disse...

Vá se lá dizer isto à sra ministra, seus apaniguados do "eduquês" e das tais e inuteis "ciências da educação" como também a alguns "comentadores traumatizados" da nossa praça!
Concerteza estão, por "razões economicistas", muito mais preocupados a INSULTAR professores.
Veremos então os resultados do "sucesso" escolar, daqui a uns anos quando se fizer a avaliação destas medidas (se se fizerem é claro, esta gente é capaz de tudo, para inverterem a razão e se desresponsabilizarem das asneiras).

Recomendo a leitura destes dois blogues, que contra a hipócrisia e o cínismo da situação, desmontam e desmascaram a realidade tal como ela é:

http://ensinarnaescola.blogspot.com/
http://educar.wordpress.com/

rui silva disse...

Só uma nota:
o último blogue chama-se «A Educação do meu umbigo».

É bom de ler!

Paulo Pisco disse...

Caro Rui,

Obrigado pelas sugestões de leitura.

Um abraço.