domingo, janeiro 28

Salazar e Cunhal







VASCO PULIDO VALENTE (VPV) volta hoje a escrever, com a sua clareza habitual, sobre nós: Portugueses. Ou pelo menos uma boa parte de nós. Na sua crónica do Público deste Domingo escreve sobre Salazar e Cunhal, a propósito do famoso concurso da RTP que procura “O Maior Português de Sempre”. Parece que, entre os dez finalistas, Salazar ganhou. Sendo o segundo Álvaro Cunhal, naturalmente. Independentemente da mobilização de votos dos respectivos acólitos, estes resultados merecem muita atenção.

VPV vê neles a “condenação absoluta do regime vigente, ou seja, da democracia”. Curioso será juntar a esta opinião, de VPV, a fraca representação actual do Partido Comunista Português (PCP) e da dificuldade endémica da nossa direita em se afirmar. Podemos concluir que o que provoca a grande admiração por estes personagens não é de todo a Ideologia, mas outra coisa.

Continuando, VPV considera que os dois pretenderam sempre um Portugal fora do “Ocidente” e da “modernidade”. Um à custa do Império outro através do “sol da URSS”. A ideia de nos modernizarmos parece, por isso, não ter grandes apoiantes entre nós.

O terceiro argumento de ligação entre Salazar e Cunhal, para VPV, é “o atraso e a miséria” como preço a pagar para garantir: a “independência”, a “segurança” e a “hierarquia”. “Ambos temiam que o dinheiro trouxesse consigo o vírus da mudança”.

Concordamos e acrescentamos:

Podemos verificar que para além do “politicamente correcto” existe um País que não se revê nos políticos e pior no “Sistema Politico” que os suporta: A Democracia. “Sem a "Europa", já havia por aí ditador”, como refere VPV.
Uma parte da nação (não sabemos se a maioria?) prefere, claramente, a ordem à liberdade.

A “bandalheira” onde graça a “corrupção” não é aceite por esta parte da "populaça". Preferem o “pequeno favor”, sem alarido - a malta tem de “ganhar a vida”- ao grande escândalo - promovido por “eles”, os outros, os da “vigarice”. Falhas todos têm, mas só são aceites as que forem comedidas. Como antigamente, com respeitinho por quem manda.

Mais importante que o atraso do País, para estes Portugueses, é quem manda “ser sério”. Para se manter a seriedade aceitam tudo. Até trazer um povo inteiro debaixo de um clima de terror e de miséria. Para todos. Claro.

Salazar, dizem, não roubou nada para si. Mas para quê? Se o País foi propriedade sua durante 40 anos. Não necessitava roubar nada. Era tudo seu. Ele não quis nada só impor sua ideia a todo o Portugal. Teve a opurtunidade de a ver e viver.

Cunhal, também muito admirado por estes Portugueses, ao ter abdicado da sua vida confortável, ganhou o estatuto de não querer “nada para si”. Queria, apenas, um “socialismo” doméstico. À Fídel. Coisa pouca, já se vê.Onde todos fossem iguais. Subjugados e vivendo mediocremente, mas iguais. Queria apenas ver realizada a sua ideia para Portugal. Felizmente não a chegou a viver.

Este “povo” que admira Salazar e Cunhal tem uma ideia muito particular sobre si, e todos os outros Portugueses. Preferem que todos sejam “pobrezinhos” mas ordeiros. Não têm ilusões sobre a inevitável “pobreza da nação”, apenas querem que ela seja distribuida por todos, sem excepções. Do dirigente máximo ao mais humilde dos Portugueses. Não gostam de Ideologia, mas gostam que alguém a tenha por si.É bonito.

Para estes Portugueses, a modernidade e a Europa, só serviram para trazer mais “assimetrias” e exigências pouco recomendáveis para quem gosta da miséria a que está habituado. Obrigou a tentar o desenvolvimento, mas todos sabiam que esse era um esforço sem resultado. O dinheiro que tão calorosamente foi recebido, parece ter sido só para alguns. Mas quem perguntarão? “Os mesmos de sempre”, os outros que não eles, ou seja nós. Fossem os políticos “gente séria” e “nem lá tínhamos entrado” – pensarão.

É bom estarmos atentos. Este País subsiste para além de mais de 30 anos de democracia e 20 de Comunidade Europeia. Pensarão os nossos dirigentes que é ficção? “Olhe que não, olhe que não.”

4 comentários:

Luís Marvão disse...

"A Democracia. “Sem a "Europa", já havia por aí ditador”, como refere VPV"
Custa a aceitar, mas é bem capaz de ser verdade...

Eu não gosto de estabelecer equivalências, um foi um ditador casto (de facto a austeridade, que em salazar era autenticidade contrasta, com os sinais de enriquecimento ilícito e outras formas de corrupção, que paulatinamente vão minando a força moral da democracia), o outro foi alguém que abdicou de uma vida confortável para que tivéssemos liberdade. Sim, porque a liberdade e democracia são feitas destes homens, que preferem a morte a uma sociedade de servidão e abdicam de uma vida normal em prol de um ideal de justiça. É verdade que se Cunhal tivesse chegado, muito provavelmente implementaria um regime de restrição (embora, na Europa Ocidental, fosse impraticável um regime como os que então existiam a Leste), mas convém na esquecer que a democracia é feita de energias contrárias, de ideais em conflito...È, em suma, um processo. Eu não tenho dúvidas de que o Cunhal era muito mais democrata do que muitos dos políticos cinzentos que por aí pululam, arvorando-se me grandes democratas. Não sei te lembras que, nos idos da Segunda Grande Guerra, foram democratas como estes que legitimaram a constituição fascista de Vichy (na Assembleia Nacional, apenas os comunistas franceses votaram contra).
Eu sinto que devo muita mais a Cunhal e aos militares de Abril do que a alguns “insuspeitos democratas” que por aí. andam. Como percebo (embora me custe) que muitos encontrem hoje virtudes na figura de Salazar (ao contrário do que dizes, Salazar não era corrupto só porque era dono da país; não, Paulo, Salazar não era corrupto por que tinha interiorizado uma lei moral kantiana; porque achava tais condutas não conformes à lei moral).

P.S. Eu não votei em nenhum dos grandes portugueses. Se tivesse votado, escolheria um Pessoa ou uma figura como o Infante D. Henrique ou ainda o, hoje, politicamente incorrecto Marquês de Pombal.

Luís Marvão disse...

para corrigir algumas gralhas:
De ler-se:
"convém não esquecer..."
"nos anos idos da Segunda Grande Guerra"
É da falta de tempo...

Anónimo disse...

volA minha opinião é que Salazar manteve Portugal o mais atrasado país da Europa, DE PROPÓSITO. Só isso já bastaria para o meter fora de qualquer lista de gente válida.
E porquê?. Porque gostava demais do poder, sentía-se insubstituivel, como um deus e SABIA que se modernizasse Portugal (e bem podia fazê-lo pois havia ouro guardado que dava para tal), por consequência os cidadãos iriam ficar mais cultos e exigiriam eleições livres como se usava em toda a Europa não comunista com excepção da Espanha de Franco.
COMO é que alguns jovens se fascinam por uma figura tão sombria, retrógada,que detestava todo o mundo livre? Aliás também DESPREZAVA a todos nós pois manteve-nos arredados dos acontecimentos nacionais e mundiais por via da censura a jornais, revistas, rádio, televisão(quando eu era miúdo só havia um pobre canal);a filmes que eram dos melhores do mundo, eram cortadas partes ou simplesmente não eram exibidos - por exemplo IVAN O TERRÍVEL do grande Einsenstein e que é "o filme da minha vida" só depois de Salazar morrer é que chegou a Portugal.
Mandava prender e humilhar pessoas com família apenas por discordar da corrente oficial.
E que dizer das CENTENAS DE MILHARES de famílias que emigraram,chorosas, sem haveres, perguntando-se quando ou se regressariam á sua terra um dia?
E que dizer dos cerca de 800 mil jovens que FORAM OBRIGADOS - sim foram obrigados pois que de vontade própria não iria nenhum para a longinqua áfrica?
E se Salazar descolonizasse como era a lógica, como fizeram a França, Inglaterra, Holanda,Bélgica, os EUA, todos países democráticos. Se o fizesse talvez os trabalhadores nacionais ainda estivessem lá e o país e as ex-colónias ficariam a ganhar.Com a sua proverbial teimosia ditatorial,deixou continuar a guerra e deu no que deu.
Haveria muito mais a dizer, claro, mas termino por hoje.
De CUNHAL direi apenas que era uma alma gémea: tudo o que disse de Salazar, aplica-se como uma luva a este senhor que teve a utopia de em l975 ocupar o poder. Teve o bom-senso de recuar no último momento, evitando desse modo uma bem possível guerra.
cumprimentos de António Azevedo de Vila do Conde.

Paulo Pisco disse...

Completamente de acordo.
Um abraço para Vila do Conde