segunda-feira, janeiro 8

Um(a) Polis (com) sentido

( Imagem do Programa Programa Polis - Av. Luisa Todi)



Falar da polis a propósito do Polis, constitui um bom motivo para reflectir sobre o seu sentido, ou a ausência dele, para os próximos anos.
Melhorar a qualidade de vida urbana constitui, em si, um esforço louvável. O desejo de “construir” cidade é o reflexo do gosto e empenho que os cidadãos demonstram pela sua vida comunitária nas suas diversas dimensões. E esta obra é sempre tarefa colectiva. Sabemos que ao escrever este artigo corremos riscos. Reflectir criticamente sobre uma “obra emblemática para a cidade”, como alguém já lhe chamou, pode parecer apenas vontade de dizer mal. A inexistência de intervenções com significado urbano, nos últimos anos, torna o exercício ainda mais arriscado, por poder parecer fútil ou excêntrico, dada a pobreza em que vivemos. Não é essa a nossa intenção. Apenas pretendemos abrir esta discussão porque entendemos que a cidade se deve e pode fazer de maneira diferente. De forma inteligente e criativa mas, simultâneamente, exigente. A escassez dos recursos assim o determina. Mas essa exigência aprofunda-se pelo confronto esclarecido através do debate. Não da mera lógica maniqueísta entre executivo e oposição, mas pela imposição da razão.
O Polis de Setúbal surge tardiamente no contexto do desenvolvimento deste programa a nível nacional. Conjuntamente com o Plano de Pormenor do Vale da Rosa, aparece como uma espécie de “moeda de troca” pela defesa da co-incineração feita pelo Presidente da Câmara de então, Mata Cáceres. A sua concepção apressada e a natural falta de visão de politicas urbanas por parte dos decisores que nos têm governado, plasmou-se na primeira proposta de intervenção para o Polis, denominado “Plano Estratégico de Setúbal” (PES). Este tem vindo a alterar-se. Não por vontade politica de o mudar, visto a nova maioria eleita desde 2001 o ter adoptado acriticamente, mas por adaptações “pragmáticas” ditadas pela realidade económica vivida desde então. A sua desadequação programática acentuou esta necessidade.
Para não nos perdermos em aspectos mais longínquos ou mesmo de concretização duvidosa acerca do previsto no Programa Polis, concentremo-nos nas três intervenções que estão, ou parcialmente realizadas – «Parque José Afonso» e «Parque Urbano de Albarquel» – ou em fase aproximada de arranque – «Reabilitação e Revitalização da Av. Luísa Todi» (os nomes são os dados pelo Programa Polis).
No “Parque” José Afonso, foi realizado um “pórtico” que enquadra um auditório com capacidade para 2500 pessoas (números oficiais). Esta estrutura era para ter sido, no programa inicial, acompanhada de uma outra, mais leve, para a realização de feiras temáticas e de um parque de estacionamento subterrâneo, que não se realizou por falta de interesse no “negócio” por parte dos privados. O investimento público foi para mais de 4 milhões de euros, na dita estrutura e arranjo exterior. Dando de barato a qualidade arquitectónica da intervenção vamos apenas referir – nos à sua oportunidade. Para se fazer esta intervenção foram retirados do Largo José Afonso, a Academia de Dança e o Grupo Desportivo, servindo, ainda, de pretexto para se “deslocalizar” a Feira de Santiago para as Manteigadas – dando, ai, origem a outro Parque (será praga!!?). Isto tudo com o objectivo de «requalificar» e «manter o carácter identitário do espaço com as representações sociais da população» assim como para atrair «novos públicos» segundo o PES. Seria cómico se não fosse trágico. Numa cidade carente de tudo é “obra”! Para perceber o desvio do que faz falta à cidade basta referir o adiantado estado de degradação do Fórum Municipal Luísa Todi onde se realiza, entre muitos outros, o evento cultural com maior projecção da cidade: o Festival de Cinema de Tróia. Apesar de este edifício também se situar dentro da zona de intervenção, ninguém se terá lembrado dele? Não poderia este constituir um espaço de «requalificação urbana», sendo ele próprio (re) qualificado?
Passemos ao «Parque Urbano de Albarquel», o único digno dessa designação. Esta intervenção parece-nos a que mais sentido faz e que mais benefícios poderá trazer aos Setubalenses e a quem nos visita. Recuperar uma praia urbana para Setúbal é, para além de um reencontro com a sua história, um potente elemento de «aproximação da cidade ao Rio», com as inerentes valências ambientais, lúdicas e turísticas que, inevitavelmente, trará. No entanto a gestão de um espaço limitado por duas “zonas fronteira”, o rio e a serra, não é fácil. E o programa proposto não nos parece suficiente para manter “vivo” o parque. Um «ringue/campo» um «café bar com esplanada» e «dois edifícios de apoio» para «associações recreativas», não nos parece chegar para manter um espaço com estas características afastado de uma degradação a prazo. Já temos algumas experiências na cidade – e fora dela - que nos permitem perceber os seus riscos. Um uso multifuncional, um pouco mais intenso e com horários diferenciados era importante para manter qualificado um percurso com este potencial. A desejada Marina podia ajudar a resolver boa parte do problema, mas, na sua ausência, devem-se procurar, desde já, alternativas.
Por último a «Reabilitação e Revitalização da Av. Luísa Todi» parece-nos a mais desprovida de sentido. Falaremos apenas em dois:
Esta avenida é dos poucos espaços urbanos em Setúbal que não têm necessidade de “reabilitação”. É um espaço com “carácter” que não “envergonha” ninguém. Apesar de ser passível de melhorias, especialmente na sua requalificação pontual (ex: os tão característicos “assadores” de peixe que, tão mal integrados estão, e sobre o qual o Polis não se pronuncia). Admitimos, no entanto, que necessite de alguma “revitalização”. Contudo a responsabilidade não é “sua” mas das suas zonas adjacentes. Esta está situada entre: a “baixa” (comercial), a zona portuária (serviços) e a zona piscatória. Tudo espaços decadentes, monofuncionais, sem população residente e a necessitarem de reconversão urbana urgente. É, por isso, difícil de entender o porquê de intervir na melhor parte, deixando as que verdadeiramente necessitam, sem resposta.
Outro aspecto intrigante é a alteração da circulação viária, suprindo a via norte da avenida e criando «um novo itinerário giratório» entre a via sul e a Rua da Saúde/Av. Jaime Rebelo (via portuária). Para além da fase das obras, que vai gerar um previsível caos na cidade, este novo traçado viário na Luísa Todi parece-nos ir agravar o trânsito em Setúbal, sem se resolver nada do que é verdadeiramente urgente: recuperar o centro histórico e a zona ribeirinha levando para lá novos habitantes e novas funcionalidades urbanas, valorizando toda a zona patrimonialmente mais rica aproximando a cidade do rio.
A Luísa Todi, continua a ser a única verdadeira circular que temos, na ligação entre as suas partes ocidental/oriental, fruto da fractura urbana exercida pelo caminho-de-ferro. É uma realidade indesejável mas é a nossa realidade e, tão cedo, não se vislumbra outra. No entanto, querem acabar com ela, gastando para isso 12,5 milhões de euros, sem trazer vantagens que o justifiquem. Temos horror ao desperdício, justifica-se tal opção? Pensamos que não.
Mas este conjunto de más opções é difícil de corrigir e ainda mais de travar. Politicamente é quase impossível. Da parte da maioria camarária, não se vislumbra qualquer esperança de mudança. Resta-nos apelar ao bem senso. E debater intensamente o melhor para a cidade. Parte do que atrás referimos poderá ainda ser corrigido mas para isso é necessário muito empenho, coragem e visão. Estarão os diversos actores disponíveis para ter um Polis com sentido?

Publicado hoje no Jornal de Setúbal


(Imagem do Programa Programa Polis - Av. Luisa Todi)

5 comentários:

Paulo disse...

Também não concordo com o actual projecto para a Av. Luísa Todi, nomeadamente com a supressão dum dos corredores da mesma, pelo simples facto de irem com isso piorar a qualidade de vida na Cidade. Irá haver grandes congestionamentos de trânsito nas zonas de inversão de sentido, com a variante da doca, já para não falar no estado em que o piso já se encontra com pouco tráfego!
Aponto portanto algumas obras que poderiam ser feitas, nomeadamente a renovação dos passeios da mesma avenida que nalguns troços estão em muito mau estado, e outra obra mais urgente que seria a requalificação do Largo do Bocage, que actualmente não tem ponto por onde pegar. O Largo precisa urgentemente de ser pensado de novo, como hierarquizar várias zonas, nomeadamente o adro dos Paços do Concelho, a zona central onde está o Bocage, o adro da Igreja, e a via processional de acesso ao mesmo largo a partir da Av. Luísa Todi, que actualmente está cortada com aquela aberração de espécie de fonte que vai até à boneca. Proponho a passagem do elemento água para uma fonte no centro do Largo integrando o conjunto da estátua do Bocage.
Eu sou de Setúbal e por isso sinto urgência em não deixar que pessoas de fora estraguem a nossa cidade. Haverá alguma forma de travar este processo?
(estudante de arquitectura)

Luís Marvão disse...

Paulo,

Este artigo suscita-me sentimentos desencontrados, tens alguma razão nas críticas que fazes, mas a meu ver cais nalguns erros.
Como não tenho muito tempo, não me alongarei neste comentário.
Quando falas do Fórum Luísa Todi, pões de facto o dedo na ferida: é incompreensível que um equipamento desta importância, palco do único evento cultural de relevância que a nossa cidade alberga, não tenha sido requalificado no âmbito do Polis. Ao invés, gastou-se muito dinheiro naquela infraestrutura do Parque José Afonso (seria preferível uma coisa mais leve e flexível, que pudesse ter vários usos), que além do mais não é funcional. Com efeito, o projecto arquitectónico não parece ter tido em conta o fim que a se destinava o equipamento. Tenho falado com gente ligada ao mundo do espectáculo, muito em particular da música, que tem queixado das limitações do referido equipamento.
Sobre a Feira de Santiago, acho que não tens razão. Este tipo de eventos está melhor na periferia do que no centro. Além disso não trazia nenhuma mais-valia para a cidade, a não ser ruído. Na Luísa Todi, a Feira de Santiago era um acontecimento que de ano para ano só piorava. Acho aceitável que a Câmara tenha adquirido um terreno para servir esta festividade fora do centro da cidade.
Na Luísa Todi, eu não diria que está tudo bem. Muito pelo contrário. E acho que tu ainda não percebeste que não há qualidade vida sem uma redução efectiva do tráfego automóvel nesta artéria nobre. Qualquer intervenção urbanística tem de passar por aí. Mas enquanto estivermos manietados pelo dogma do carro particular, não há nada a fazer.
Um ultimo aspecto, por mais perfeita que seja um intervenção urbanística, convém não exagerar. Pois o urbanismo não é uma espécie de panaceia para todos os males. Por melhores que sejam os equipamentos, os espaços de lazer e comércio, muito vai depender da qualidade dos empreendimentos privados. E, nessa matéria, a nossa sociedade civil deixa muito a desejar (já reparaste que não tens um único café decente no baixa; e o estado do comércio?).

Paulo Pisco disse...

Relativamente ao que o Paulo refere penso que sente de alguma dificuldade, como todos nós em compreender a necessidade desta intervenção na Luísa Todi. Contudo a questão do “urbanismo” entendido como “arranjo de espaço público, como refere o Luís, tem as suas limitações. O que me preocupa mais, no estado em que as coisas estão, não é o arranjo da Praça do Bocage, é porque está a Baixa e todo o centro histórico neste estado. Com o comércio a degradar-se sem habitação e cada vez mais longe da vida da maioria da restante cidade? Quando vamos a uma cidade o que mais apreciamos é a vida que ela transporta e alberga. É fascinante ir a uma Medina em Marrocos e no entanto ela não tem os passeios arranjados. Com isto não estou a defender a degradação do espaço público como salutar, antes pelo contrário, o que defendo é a preservação pela vivência local do espaço. Um espaço onde ninguém vive é um espaço empobrecido sem ninguém para tratar dele. Só existe urbanidade quando existe diversidade e vivência. Todo o dia e também de noite. Com todas as funções urbanas.

Eu também me posso considerar Setubalense, mas não penso que seja o facto de se vir de fora que faz um mau projecto ou uma má politica. É a má condução de uma politica ou de um projecto que faz com que isso aconteça. Um projecto urbano não é um projecto de arquitectura. Tem mais complexidade, diversidade e uma escala física e temporal mais “larga”. Não resulta de um gesto. Não é uma obra de autor, no sentido típico do termo. E, hoje em dia, face à incapacidade politica para compreender o fenómeno urbano, os agentes técnicos tentam fazer o que podem e podem pouco. Por vezes também não vão para lá do “fogacho” de consumo rápido.

Relativamente ao Luís estou de acordo com o texto final. De facto a cidade é feita pelos cidadãos. Pela sua qualidade e empenho ou pela falta dele.
Sobre a Feira, já escrevi (http://memoriasdeadriano.blogspot.com/2006/07/feira-que-no-desejmos.html) o que pensava sobre a sua mudança. Respeito quem pensa o contrário, mas discordo. Não sei se erro, mas gostava de poder provar que não.

A redução do tráfego na Luísa Todi é desejável. E não só ai mas em toda a cidade ou mesmo em todo o País. Não é essa a minha questão. A questão é, actualmente, não existir alternativa consistente para se circular poente/nascente dentro da cidade. Quando essa alternativa se fizer na Luísa Todi, o tráfego vai naturalmente diminuir. Mas isso em si pode não significar mais do que mais decadência para a zona central da cidade. O problema é falta de vida. Habitantes, alunos, emprego, comercio, cultura, bons cafés e restaurantes. Vida. E o Polis como está, não vai contribuir para esse acrescentar de vida. E mais grave, face aos objectivos do próprio Polis, afasta a cidade do Rio. A grande fruição faz-se entre a baixa e o novo passeio público da Luísa Todi. Estando uma via rápida entre esta e o Rio.

Rui Silva disse...

Relativamente ao que disse Paulo Marvão, não posso deixar de manifestar a minha concordancia com duas coisas que referiu: o excesso de transporte automóvel na cidade levou-me a lembrar da pessima rede de transportes urbanos que existe, principalmente em termos de horários e interligações, e a inexistência de um interface rodo-ferroviário, que já há muito seria desejavel (principalmente depois da implantação da rede da Fertagus).
Depois a questão dos cafés. Realmente Setúbal, sendo capital de distrito, hoje em dia não consiguiu manter um único café "de jeito" e tradicional. É pena, até o heterogénio café Esperança e a sua esplanada, acabou por ser "enlatado" em hamburgueres e clientela "hip-hop", apesar da curiosa resistencia de alguns antigos clientes que, cada vez menos, por lá vão ainda mantendo o hábito de forma fugaz. Até a barbearia terá os dias contados depois da reforma do senhor Manuel.
Lamenta-se, pois as cidades também se fazem destes "espaços sociais".

Mário disse...

Cada vez tenho mais medo de olhar para a avenida, estão a destruí-la. Cada vez que retorno a Setúbal tenho uma desilusão.

Sinto-me discriminado! Eu e todos os moradores do Viso e Troino, porque parece que n vivemos em Setúbal, cortam-nos os acessos ao centro e Às zonas de trabalho. Se sair de casa e cometer o erro de entrar na avenida, e com os boatos que querem fazer um estacionamento de ponta a ponta (incluindo o quartel do 11) n vejo alternativas, a avenida passa a ser o inferno que era na altura da feira (ou pior).

Mas o que é isto, transformar o que estava bem num parque de estacionamento, que vergonha! Câmara da Treta n tinham dinheiro, coitadinhos mas agora esbanjam o nosso futuro.

Quanto ao parque de albarquel, por que motivo ainda está encerrado? Faz 6 meses que está pronto do que estão à espera, n tem restaurantes? E quem precisa deles, pq n posso ir até lá passear?

Tenho nojo de ser setubalense, espero que n me destruam mais aquilo que aprendi a gostar enquanto cresci nesta cidade.