segunda-feira, janeiro 7

O Pacheco, Luiz


soubemos que nos deixou durante este fim-de-semana. Ficámos mais pobres. Mas não vamos aqui fazer aquilo que o próprio acharia abjecto, um elogio póstumo. Apenas manifestar algum respeito por quem nos faz pensar.

Luiz Pacheco (LP) era no panorama intelectual e mesmo existencial um fenómeno raro entre nós. Apesar de admirarmos nos outros um certo pendor para a desgraça, até porque nos deixa sempre mais confortáveis na nossa ilustre mediocridade, preferimos sempre aquela que se justifica pela doença, má sorte ou, sendo intelectual, a incompreensão e a injustiça do País face ao génio. LP não cabia em nenhuma destas categorias. Não era doente, apesar da vida de “excessos” que levou, não teve má sorte, cultivou-a e o seu génio foi reconhecido. A pequena dimensão do País e o facto de se estar a lixar para o sistema reverencial da “coltura” portuguesa não lhe permitiu viver com conforto. Mas todos lhe reconheceram o génio.

Nunca se queixou, antes denunciou quem vivia da tensa do Estado sem o merecer ou de que quem produzia literatura como se fosse um funcionário público, todos os dias. Não fazia qualquer concessão. Foi o mais próximo que tivemos de um libertário radical no século XX português.
O que é interessante registar é que foi durante o Estado Novo que viveu boa parte da sua vida adulta (muito ligado aos meios surrealistas). Tempos de ditadura. Mas se LP tivesse tido a sua juventude hoje seria um homem mais perseguido e menos livre. No mínimo seria preso. Pedófilo, além de ser bissexual sujeitou toda a sua família a um ambiente pouco recomendável, para os padrões vigentes. Viveu no limite, até da sobrevivência.

Sem qualquer apologia, literária ou ao modo de vida de LP aqui fica a nossa admiração e respeito pela diferença. Uma das mais admiráveis características do homem. E quem assume com a radicalidade com que Pacheco o fez merece ainda mais respeito por não ser gratuita. Pensar nele e na sua obra faz-nos reflectir sobre as nossas opções relativizando-as. E isso é… muito.

3 comentários:

Paula Crespo disse...

Chovem os posts sobre Luiz Pacheco. Sinceramente, não o conhecia. Reconheço, pelo que agora leio dele, que terá sido uma alma diferente e arrojada. Reconheço, então, que se lhe deva tirar o chapéu, por essa diferença. Interrogo-me, no entanto, quantas pessoas gostariam de ter como amigo próximo uma figura destas... Sinceramente.

Paulo Pisco disse...

Nunca conheci possoalmente Luiz Pacheco. Não sei se gostaria dele como amigo. A amizade é uma circunstância, que vai da simpatia mutua aos percursos de vida comuns, passando pelas cumplicidades, etc, etc. Penso que uma amizade duradora nunca é fácil de manter ao longo dos anos, com LP talvez fosse ainda mais difícil, não sei. Só sei, que a amizade vai para além da racionalidade, tal como o amor e por isso é sempre dífícil responder à sua interrogação. Dependeria sempre do desejo de ambos para a manter.

Paula Crespo disse...

Concordo. Mas tem de haver empatia, o que pressupõe gostos em comum e - convém não menosprezar - algum entendimento... Uma personagem que parece ter sido irrascível, se bem que intelectualmente interessante, como ele, deixa adivinhar um caminho penoso para qualquer relacionamento, parece-me. Mas não o conheci, portanto são meras conjecturas.