terça-feira, setembro 20

segunda-feira, setembro 19

Dias de Setembro 19

Edward Hopper

East Wind over Weehawken,
1934
Regresso às aulas. Crianças. Muita expectativa. Novas esperanças. Um novo ano escolar.

Greta Garbo



Fazia anos hoje (n.1905). Ontem esteve na RTP 2 em Anna Karenina (1935)

domingo, setembro 18

Será este quadro "arte gay"?

Francis Bacon
Self Portrait
1976

A propósito da propaganda e contra-propaganda acerca da exposição pública, cada vez mais assumida, de um certo “modo de vida gay” não se pode perder o que escreveu sobre o assunto na “Actual” (Expresso) João Pereira Coutinho em resposta António Guerreiro. “Identidade e neurose” é o título do artigo. O seu autor defende a tese simples e evidente de que o “ Homossexual é adjectivo não é substantivo. Descreve um acto não uma identidade”. No essencial está tudo dito.

Será este belo quadro de Bacon, alguma vez, um quadro de “arte gay”?

Pensamos que não. Tenham paciência mas nunca a preferência sexual foi factor valorativo ou depreciativo de uma obra de arte ou de uma realização humana. A não ser por gente que não percebe nada do assunto e talvez por isso só consegue discutir do que verdadeiramente percebe.

Tentar catalogar como factor identitário a preferência sexual - ou a cor da pele, por exemplo - não faz o mínimo sentido. Como refere JPC a “elevação da natureza a causa indentitária” não tem qualquer cabimento. Não se escolheu. É assim.

Não vale a pena ser exposto como factor a ter em conta por si só. Uma vítima é uma vítima. Independentemente de ser ou não ser homossexual. Um criador tem mais ou menos valor independentemente de com quem ele anda ou se deita. A obsessão da afirmação com base apenas num factor - sexual ou outro - só torna os próprios “escravos” dessa condição. Quando o ser humano é muito mais do que apenas isso. As criações são humanas não são de sexo, raça ou religião...

Dias de Setembro 18

Edward Hopper

Gas
1940


Num Domingo como hoje este pode ser o cenário. Por quantos mais anos o será? Eis algo que ninguém se atreve a adivinhar.

sexta-feira, setembro 16

Dias de Setembro 16



Edward Hopper
Light at Two Lights
1927
Entre o novoeiro é necessário algum ponto de referência.

quinta-feira, setembro 15

15 de Setembro dia de Bocage


Apenas vi do dia a luz brilhante

Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá de Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.
Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e enfim meu fado,
Dos irmãos e do pai me pôs distante.
Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da Pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo.
E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura

Manuel Maria Barbosa du Bocage

quarta-feira, setembro 14

Indicadores de Educação 1

O Relatório “Education at a glance” reflecte, comparativamente, sobre alguns indicadores de educação nos 30 países da OCDE. Hoje o Público destaca em primeira página os últimos resultados deste relatório (2005).

Continuamos a verificar que, apesar da melhoria dos últimos anos, do conjunto da OCDE, a população portuguesa, entre os 25 e os 34 continua a ser a que menos anos passou na escola: 8,2 anos – 12 na média da OCDE. O México e a Turquia estão nesta lista.

A taxa de conclusão do 12ºAno é de apenas 37% no mesmo grupo etário. Ou seja entre os 25-34 anos 63% não têm o 12ºAno.

Alargando a toda a população adulta (25-64 anos) apenas 22% têm o 12ºAno completo. A média da OCDE é de 66%.

A Coreia do Sul passou de 32% nos nascidos na década de 40 (55-64 anos), para 97% nos nascidos na de 70 (25-34). Sendo hoje o país deste grupo com melhor desempenho neste indicador. Secundado por países como Noruega (95%), Japão e, pasme-se Eslováquia (94%).

No mundo da OCDE quem não completa o Ensino Secundário tem duas vezes mais probabilidades de ficar no desemprego do que os que o completaram. Ou seja, neste mundo, o grau de educação formal obtido faz uma enorme diferença na obtenção de emprego, pois esses empregos exigem cada vez maior qualificação.

Apesar da enorme evolução observada nos últimos anos e de todas as reformas do ensino estes números – tal como outros – não nos podem deixar tranquilos. São demasiados os jovens de hoje que não terminam o secundário. E a exigência do ensino tem vindo a baixar. Não nos parece ser possível continuar a pensar que um certo laxismo conduz a menor abandono escolar. Os números não indicam isso. O que os números indicam é que tem sido à custa do aumento da escolaridade obrigatória que o grau de escolarização aumenta.

Pensamos por isso que o objectivo de aumentar a escolaridade obrigatória para o 12ºAno é fundamental para alterar esta realidade. Não poderá deixar de ser acompanhado de outras medidas – por exemplo: o aumento da exigência através da avaliação das escolas e uma via de ensino profissionalizante verdadeiramente alternativa – mas é indispensável que venha ser implementada.

Sem outros recursos a nossa única riqueza é o material humano e este ainda está muito longe de estar minimamente formado. Sem atacarmos esta realidade todo o restante esforço será em vão.

P.S. -O Relatório trás outros aspectos muito interessantes que abordaremos mais tarde.

Dias de Setembro 14



Edward Hopper

Blackhead, Monhegan

1916/19

O calor destes dias volta a pedir mar.

terça-feira, setembro 13

segunda-feira, setembro 12

O sexo dos Anjos

Hoje no Público um artigo de Mário Pinto foca a velha questão de quem faz melhor o quê. Estado ou Privados. Passamos a citar:

"5. PÚBLICO É BOM; PRIVADO É MAU. Há poucos dias, no contexto de várias declarações públicas, entre elas as do Presidente da República sobre as obrigações dos proprietários de florestas, Vital Moreira caricaturou os proprietários privados como incapazes da defesa do interesse público. Editou, no seu blog (cito, com a devida vénia): "A questão dos fogos florestais tornou mais evidente que: (i) a propriedade privada e o mercado não garantem um ordenamento racional da floresta; (...) (iv) a resposta ao flagelo impõe a intervenção do Estado (...). Para desconforto dos ultraliberais, existem áreas onde há Estado a menos, e não a mais...". Vai daí, poucos dias depois, a imprensa noticia declarações oficiais: "Mais de um quinto da área ardida nos incêndios florestais é do Estado". Pouca sorte!"
Este tipo de argumentação parece-nos sempre – sem desprimor para os autores que respeitamos bastante – as discussões Sporting/Benfica, ou outras do género. Que o Estado é grande de mais em Portugal parece-nos uma evidência. Mas se ele funcionasse bem talvez muitos de nós estivessem na disposição de o pagar. O que de facto também não se verifica. E este é, na nossa modesta opinião, o cerne da questão. Quais as funções que devem ser asseguradas pelo Estado.

Todos concordamos que existem algumas que só o Estado tem capacidade e vocação para assegurar. Vamos discutir quais e como os devemos por a funcionar de forma eficaz. Mas mesmo nessas funções os serviços que dai decorrem e podem vir a ser concessionados a particulares.

O caso focado por Mário Pinto a propósito de Vital Moreira parece-nos ser um deles. Dada a fragmentação do território em Portugal terá de ser a Administração (Central, Regional ou Local) a coordenar e a implementar as estratégias definidas. Assim como estabelecer a forma de pagar esse processo, com custos e benefícios repartidos por proprietários, onde se incluiria o próprio Estado. Mas já a sua aplicação no terreno podia ser realizada por empresas privadas.

Estar sempre a discutir o sexo dos anjos não nos parece ser a melhor forma de chegar a Deus. Salvas as devidas diferenças.
Nas questões do Ordenamento do Território e no Urbanismo a Administração terá de estar sempre presente pois na maioria das vezes só ela tem a capacidade de articular tão diversos interesses e legitimidades. No entanto a sua execução não tem que ser, necessariamente realizada por funcionários públicos.

Dias de Setembro 12

Edward Hopper
Chair Car
1960

Ler em viagem. Outro grande prazer. Continuamos sem saber se será o corpo ou a mente o melhor meio para nos transportar.

domingo, setembro 11

Miguelanxo Prado






Dedicamos hoje este pequeno destaque ao mundo da BD.
Miguelanxo Prado é um dos nossos autores de BD preferidos.

Tomamos conhecimento com este autor por mero acaso numa imagem publicada num jornal, onde se falava do autor. Uma simples vinheta. Foi de tal forma impressiva aquela vinheta que fixamos imediatamente o nome do autor para logo procurarmos o que estava publicado no nosso “pequeno” mercado.

“O Manancial da Noite”, foi a primeira aquisição. Depois vieram outros. Foi assim que descobrimos este magnífico autor. Confessamos que o que mais nos fascina é o desenho. A cor também é magnífica. As histórias são interessantes e divertidas mas a originalidade, expressividade e diversidade do traço deste autor são o mais fascinante. A ver e ler mesmo para aqueles que não sejam grandes apreciadores do género. Basta que apreciem arte.

11 de Setembro








Após quatro anos homenageamos aqui todos os inocentes que morreram injustamente e pelas razões mais absurdas. Desejamos que nunca mais volte a acontecer. Esperando que a “barbárie” jamais triunfe. Hoje “somos todos de NewYork".

Dias de Setembro 10

Edward Hopper

Office at Night
1940


Trabalhar à noite. Quase sempre bom. Por vezes quase solene.

sexta-feira, setembro 9

Sondagens

No Margens de Erro analisam-se duas sondagens sobre as presidenciais onde se refere no último paragrafo:
" Para mim, perturbante: que a maioria dos eleitores (quer os que tencionam votar Cavaco, quer Soares, quer todos os outros) achem que o Presidente deva ter mais poderes ou que deva intervir na vida política do dia-a-dia para "ajudar a resolver os problemas do país" (72%). Quando se acha que os problemas do país se resolvem de Belém, isso significa que se acha que as instituições que de facto deviam governar e legislar estão bloqueadas. A importância inusitada que a comunicação social e os comentadores têm vindo a dar as presidenciais de há dois anos para cá é sintoma disto. Mas que isto fosse assim durante o consulado de Santana Lopes, ou mesmo antes, não me surpreende muito. Agora que se continue a achar isso quando um governo dispõe de uma maioria absoluta só posso ver como mau sinal. "
Na nossa modesta opinião a questão não é meramente conjuntural como sugere Pedro Magalhães. Não se trata de existir ou não estabilidade governativa. O problema coloca-se, ao nível do descrédito das instituições.

O regime democrático criou demasiadas expectativas em relação à possibilidade de mudança de alguns problemas estruturais da nação. A construção colectiva de um futuro comum, por contraposição ao mito do “timoneiro” que traçou o nosso caminho individualmente por mais de 4 décadas, esgotou-se rapidamente.

As instituições e as organizações continuam a funcionar muito mal. Apesar de todo o “desenvolvimento” das últimas décadas, esta dificuldade estrutural mantém-se. A mediocridade partidária não ajudou a modificar esta realidade, agravando mesmo o sentimento geral de incapacidade colectiva na resolução de problemas comuns.

Perante a incapacidade institucional e organizacional o sistema funciona mal e quando funciona bem deve-se na maioria das vezes a valores individuais ou mais restritos, normalmente debaixo de uma forte liderança. Por exemplo, quando se pensa distinguir um hospital, não se vêm grandes diferenças, mas dentro destes consegue-se distinguir um bom médico ou uma boa equipa.

O sentimento geral é de desconfiança em relação ao que é colectivo o que tem vindo a gerar uma nostálgica vontade de regressar à individualidade que nos poderá “salvar”, nem que seja só da nossa própria responsabilidade.

E essa nostalgia só nos poderá fazer regressar ao passado.

Contra Corrente

Ver o artigo Sodoma e Gomorra de Pacheco Pereira – publicado na integra no seu "Abrupto" - e "O mundo está melhor" de José Manuel Fernandes são essenciais para perceber como se tem manipulado a opinião, especialmente num país ”pequeno como o nosso.

O primeiro reflecte a forma perniciosa com que toda comunicação social tem olhado para a catástrofe natural provocada pelo “Katrina”. No seu discurso noticioso sente-se, subliminarmente, a intervenção da mão “divina”, recordando-nos o que já se tinha sentido em relação ao 11 de Setembro, recordam-se?

O segundo demonstra com base em dados objectivos de um relatório da ONU que a famosa “Globalização” tem ajudado a tornar o mundo mais próximo – apesar das ainda enormes desigualdades – nas últimas décadas em vários indicadores de desenvolvimento. Curioso é perceber como a análise do próprio relatório contraria a evidência dos números.

Quem disse que a ideologia morreu?

Dias de Setembro 9


Edward Hopper
Chop Suey
1929


Conversar no café pode ser uma das óptimas maneiras de passar estes dias de Setembro, especialmente quando chuvisca como hoje.

quarta-feira, setembro 7

Vistas largas 2


Faltam apenas perto de 24horas para a "implusão" das duas torres em Tróia.
Para além da implosão, já de si assinalável, por representar uma atitude de reconversão do território que não passa por mais construção, esperamos todos os que habitam nesta região um novo impulso para o seu desenvolvimento.
São imprescindíveis vistas largas para agarrar a oportunidade.

Dias de Setembro 7




O Outono parece ter definitivamente chegado. Estou no meu elemento. Esperemos que este não nos abandone demasiado depressa, não se transformando em Inverno precoce ou Verão tardiamente revisitado. As estações também têm direito a ter o seu tempo e espaço. Infelizmente cada vez menos observado.

terça-feira, setembro 6

A Direita e a Cultura

Promovido pelo Direita liberal em Setembro no Teatro S. Luis.

Apesar de considerar a cultura como algo fora do debate meramente ideológico, penso que em Portugal é necessário travar esse combate para repor o equilíbrio. Porque para muitos ser de esquerda e ser culto são quase sinónimos. É necessário corrigir a perspectiva.

Dias de Setembro 6


Edward Hopper
Cape Code Afternoon
1936


A chuva está de volta. São assim os dias de Setembro.

segunda-feira, setembro 5

Sobre as Presidenciais

não perder Uma candidatura positiva

Dias de Setembro 5

Edward Hopper

Corn Hill
1930

Debates Autárquicos 1

Acabamos de assistir a um debate civilizado e esclarecedor entre o Dr. Carmona Rodrigues e a Dra. Maria José Nogueira Pinto. Não me vou pronunciar sobre o teor das propostas concretas, mas não deixa de estar a léguas de distância dos debates a que temos tido a oportunidade de assistir nos últimos dias no mesmo canal (SIC Noticias). Nestes debates têm sido escolhidos os “piores” candidatos, envolvidos nas situações menos recomendáveis e apelando ao que de mais negativo existe entre nós. Tem sido de tal maneira que hoje pareceu um debate de outro país, eventualmente de outra galáxia.
Foi bom, não só por isso, mas porque permitiu uma troca de pontos de vista e de formas de ver as problemáticas urbanas clarificadora e apresentada de forma compreensível, obviamente dentro dos limites do formato. Bem hajam.

sábado, setembro 3

sexta-feira, setembro 2

Não dá para acreditar!



Hoje pela manhã recebi esta missiva no correio:

“Convidam-se todos os membros da Assembleia Municipal a estar presentes na cerimónia de apresentação de cumprimentos de familiares dos 5 cubanos detidos na prisões dos Estados Unidos da América, na qual participará também o Embaixador de Cuba, que se realizará na próxima 3ªFeira, dia 6 de Setembro, pelas 17 e 30m nos Paços do Concelho.
O encontro é aberto à Comunicação Social.

A Presidente da Assembleia Municipal”

A Exma. Senhora Presidente desta Assembleia Municipal é a Dra. Odete Santos em Setúbal. Órgão Autárquico do qual faço parte.

Quando o li, sinceramente não sabia o que pensar de tão intrigante convite. Seria engano. Teria a senhora pensado que estava a enviar para os militantes do PCP e por qualquer lapso seguiu para o sítio errado. Talvez, no entusiasmo da “Festa” – sim porque para “eles” só existe uma festa, a do Avante – tivessem cometido algum lapso.

Não. Parece que é mesmo para levar a sério. É mesmo dirigida aos Deputados Municipais de Setúbal. Sendo assim a perplexidade aumentou. Sabemos que nas últimas eleições lhes deram a maioria absoluta mas a Assembleia Municipal de Setúbal ainda não é o Partido – para eles também só existe um, o Comunista – é um órgão representativo da população setubalense. Merece respeito. Não é apenas um clube de amigos nem uma agremiação. É um órgão representativo de toda uma comunidade. Livre e plural, felizmente.

Ninguém duvida que talvez existam cidadãos cubanos presos no EUA, como provavelmente portugueses. Assim como de todas as nacionalidades que não cumprem as leis do país. Tal como acontece em Portugal.

No entanto, o teor do convite sugere estarem presos nos EUA por serem cubanos. Ao que se sabe, por essa razão só em cuba se encontram cubanos presos. Não 5 mas todos os que ai habitam. Presos na tirania de um ditador há demasiado tempo fora de validade. Em cuba, os que de facto vão para a prisão, pelo simples delito de pensarem pela sua própria cabeça, a maior parte das vezes perdem-na. Saramago só há bem pouco tempo se deu conta disso mesmo. Odete Santos ainda não. Era apenas triste se só a ela disse-se respeito. É humilhante para todos os setubalenses ao envolver a sua Assembleia Municipal nesta caricatura fora de tempo.

Vistas largas 1



Recomenda-se olhar a paisagem como um dos grandes prazeres. Continua a ser gratuito e por enquanto ainda não paga imposto.
Uma paisagem da mais bela serra – Arrábida – e sua baia – Sado. Com Troia ao fundo.

Dias de Setembro 2

Edward Hopper
A Woman in the Sun
1961

Acordar tranquilamente ao nascer do sol e olhar para a janela. Simples. Essencial. Vital.

Dias de Setembro 1

Edward Hopper


Early Sunday Morning
1930

Estes dias calmos do início de Setembro deixam-nos nostálgicos. O Outono aproxima-se sem darmos conta. Apesar do calor a luz já deixa transparecer a próxima estação. É sempre uma boa altura para por os pensamentos em dia. Perspectivar o futuro próximo e ordenar o que parece importante. Vivemos tempos de muito barulho. O silêncio parece ser o mais recomendável. Tudo o que rodeia o espaço público e mediático reflecte uma enorme cacofonia. Nada de verdadeiramente importante parece passar por ali. Resistir e reflectir parece ser actualmente o melhor remédio. Manter o rumo – o nosso rumo – é actualmente muito difícil quando assistimos, todos os dias, a uma constante mudança de objectivos. Tudo conforme as conveniências de cada momento. O táctico venceu o estratégico. O alarve o educado. O bárbaro o civilizado. Já nada se valoriza tudo parece ter igual valor.
Para não nos sujeitarmos é talvez melhor desligar da “espuma dos dias” e fazer apenas o que realmente é essencial, para cada um. E resistir e esperar por melhores dias. Ler pode continuar a ser a solução. Mas atenção ler apenas o que sempre quisemos ler mas ainda não nos demos a oportunidade. Pela minha parte recomendo a “Montanha Mágica” de Thomas Mann. Tem muitas páginas e é muito “pesado” – materialmente falando – e está fora de moda mas vale a pena. Ler uma boa obra continua a ser uma óptima forma de resistir nestes tempos tão pouco estimulantes. Voltaremos à montanha, por agora fiquem com Hopper

segunda-feira, agosto 22

A Good Woman




"It is through Art, and through Art only, that we can realise our perfection. "



Oscar Wilde


Mais um filme onde, inesperadamente, somos obrigados a passar uma tarde sem calor. Baseado numa peça de Óscar Wilde consegue, este filme, a proeza de nos transportar para os anos 30 numa linguagem sem paralelo. O texto, bem à maneira de Wilde, a fotografia e os cenários -de “tom” nostálgico - transformam este filme numa peça a não perder. Não esquecer a magistral interpretação de Hellen Hunt, que seria uma injustiça não destacar. Mais um “belo filme” pretensiosamente despretensioso.
Atenção. Não consta dos destaques…




sexta-feira, agosto 12

Estou de Volta 2

Estar de volta após tanto tempo pode não parecer bom agoiro para o futuro destas memórias. Não prometo nada. Apenas garanto que vou fazer um esforço para ser mais fiel a esta escrita. Porque outras houve, que nos causaram desgaste

O país continua extremado. Os que podem banham-se, os que não, assam. Sobre este assunto, pouco ou nada mais a dizer. Talvez, sofrer...

A mim salvam-me os livros e os filmes, que não se devem molhar nem queimar, apesar de por vezes nos proporcionarem banhadas ou escaldões.

Na primeira categoria incluiria “ A Misteriosa Chama da Rainha Loana” de Umberto Eco – Círculo de Leitores, 2005 – que me parece a mais pobre das obras de Eco. O tema central em torno da perda da memória e a tentativa desesperada de a recuperar, por parte de um septuagenário promete. No entanto, a “chama” vai-se perdendo ao longo do livro e com ela o sentido da narrativa.

Na segunda categoria colocaria “Viver para contá-la” de Garcia Marquez – Dom Quixote, 2002 – que sem nos prometer muito nos vai resgatando do saboroso marasmo de Agosto, para a dura mas mágica realidade – fantástica, claro – do seu início de vida na Colômbia, em meados do século XX.

Nos filmes destacamos “Rainhas”. Uma agradável surpresa onde as expectativas não abundavam. De fotografia e “tiques” à Almodôvar surge uma história circular em torno do primeiro casamento de “maricons” realizado em Madrid. Uma série de casais e seus progenitores embrenham-se num sem fim de peripécias, em que as mães – sempre elas - acabam por remediar o que parecia não ter remédio. Trama leve mas bem construída sem pretensiosismos ou moralismos de qualquer espécie. A ver, numa qualquer tarde em que o sol se esconda ou a sua presença já canse.


segunda-feira, maio 9

Estou de Volta

Após o pedido de vários amigos estou de volta.
Estive ausente estando presente. A memória não se apaga. A imaginação também não.
Havia quem já perguntasse, porquê Bacon? Já estamos fartos de Bacon.
Assim mudo para outra grande pintora, e a propósito de memória e imaginação, cá vai a nossa “cota” nacional para a grande arte. Paula Rego.

quinta-feira, fevereiro 10

Bacon


Francis Bacon
Three Figures and a Portrait, 1975


Gostaria por vezes de encontrar, mais do que procurar. Mas no meio da busca nem sempre encontramos o que desejamos. Mas persistir é preciso.

terça-feira, fevereiro 1

Saraband



Ingmar Bergman


A cumplicidade de duas mulheres. É belo de observar. O reverso da medalha será inevitavelmente acentuado. Cruel. Mas essa é a inevitabilidade da condição humana, neste caso manifestada no feminino.
Vem isto a propósito do último filme de Bergman – que fui obrigado a ver num lugar chamado “Millenium Alvaláxia”, bom para o futebol, mas longe de ser confortável – que se revela belo mas cruel, como a vida.
Sempre que vejo um filme deste realizador fico como se me tivesse dado um soco. Primeiro zonzo, depois dorido e por último reflexivo. A sensação nem sempre é agradável mas é sempre estimulante. Depois de recuperado. Obviamente.
Apesar de tudo vale a pena enfrentar “Alvalaxia” para ver o filme. E este é um em grande, não por aquilo que revela, mas por o que oculta. Não será o silêncio, na música tão importante como o som? Não será a sugestão adivinhada tão importante como a imagem explicitada? A não perder… Com as devidas previdências, claro.

quarta-feira, janeiro 26

Egon Shiele


Egon Shiele

A expressão em estado puro. Este é também um dos meus pintores de eleição. Pintor Austríaco da transição do século (1890/1918), discípulo de outro pintor, também Vianense. Gustav Klimt, já aqui referido. Tendo seguido um percurso paralelo a Oskar Kokoschka, criou um traço pictórico muito particular. A expressão do desenho e o carácter do traço como elemento dominante da composição, atingem neste pintor, um ponto alto. A manipulação da forma, assume, através da transformação do corpo, a expressão de sentimentos limite. Este é o centro do mundo de Shiele. O mundo dos corpos como demonstração dos estados da alma.
Na clássica dicotomia, abstracto/figurativo – tão presente no século XX - confesso que os meus pintores de eleição pertencem ao segundo campo. Especialmente os “Maneiristas”, no seu sentido original, à maneira de…

segunda-feira, janeiro 24

Rankings escolares 1


Assisti na passada quinta-feira (20.01.05) ao lançamento do livro “No silêncio somos todos iguais” de David Justino. Sim o ex-ministro. Escreveu um livro pequeno, bem escrito e cientificamente inatacável. Perde-se um ministro recuperou-se o académico. O autor é professor associado do Departamento de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa. De forma sintética rebate um conjunto de ideias feitas sobre os Rankings, escolares e a sua divulgação – sim está sempre em risco de se silenciar – e os factores que influenciam o seu desempenho. Desde já digo que, tal como o autor sou favorável à divulgação dos resultados dos exames, conhecidos como Rankings. Vou passar a explicitar alguns dos pontos essenciais expostos no livro:
Relação, ensino público/privado. Fica demonstrado que as escolas privadas – a minoria do sistema – tem os melhores resultados nas cidades de maior dimensão. Em Lisboa e Porto. Cidades que, têm capacidade demográfica e económica para manter, de forma “sustentada” e ao longo de muitos anos, um conjunto de escolas ditas, de elite. Nas restantes cidades, de menor dimensão, as escolas públicas assumem os primeiros lugares na região. As privadas assumem um lugar idêntico às públicas. Há melhores e piores. Não se destacam.
Relação, desempenho educativo/dimensão das turmas. Não é se pode demonstrar uma relação directa entre estes dois factores. Acontecendo que em muitas das escolas que sofrem menor pressão demográfica, tendo por isso turmas menores, apresentam piores resultados. Neste grupo encontram-se as escolas de zonas de êxodo demográfico, ou menos “procuradas” por alunos nos meios urbanos mais dinâmicos.
Relação, desempenho custo médio por aluno. Desmistifica a ideia de que gastando mais se conseguem melhores resultados, onde muitos exemplos provam justamente o contrário.
Relação, desempenho custo médio do pessoal docente. Este indicador consegue ter uma relação relativamente directa com o desempenho, apesar de existirem desvios “estatísticos” que não permitem conclusões precipitadas. Como se calcula a remuneração está directamente ligada com dois factores: a experiência e por consequência a estabilidade.
Estes são alguns dos aspectos focados que mexem com algumas das “vacas sagradas” do “eduques” cá do burgo. E só por isso já valeu a pena ter sido escrito. É favor ler.
Da Gradiva

terça-feira, janeiro 18

El Greco


El Greco - Vista de Toledo 1597

Há beleza na tempestade. Com aquele turbilhão de azul a negro, sugerindo o desespero, surge o verde esperança da natureza envolvente. Complementar. A cidade – Toledo - e a sua pequenez, sobrevive na serra, com ela e contra ela. Eis nós, face à (nossa) natureza. O medo e a esperança. A circunstância e a transcendência.
El Greco, um dos mais brilhantes pintores de todos os tempos, mostra-nos na paisagem o turbilhão da nossa condição humana. Interiormente e na sua relação com o mundo que nos envolve.
É assim a grande arte. Olhar uma paisagem é sempre um olhar interior. Não é o que vê mas como vê, que distingue. A Arte da Ilustração. Embora esta última também se possa fazer com talento.

segunda-feira, janeiro 17

A Riqueza de Agustina


Agustina

Para que serve a riqueza? Esta questão tem levantado as mais diversas interpretações. Hoje, entre nós, estamos muito preocupados com a criação de riqueza, onde entronca a celebre questão da “produtividade”. A criação de riqueza – ou acumulação de riqueza – é uma actividade olhada e concretizada de formas diversas ao longo da história que se modificou com a cultura do tempo e a forma de civilização. Max Weber na sua obra “A Ética Protestante” atribui a fundação do capitalismo moderno aos Calvinistas Puritanos. Na vontade de uma vocação para “glória de Deus” estes desviam dos conventos o ascetismo e põem-no ao serviço do capital. O despojamento associado à capacidade de realização e uma verdadeira dedicação ao trabalho criam o caldo de cultura para o desenvolvimento da civilização ocidental, assente no “capitalismo”. Como podemos perceber nada acontece por acaso.
Esta explicação vai ao encontro daquilo que me parece mais próximo de uma explicação razoável sobre a questão da criação da riqueza. A vontade de uns, associado à sua capacidade de realização, contra a falta de vontade de outros. E não uns a explorarem os outros. O maniqueísmo da visão de uns explorados e outros exploradores não chega para explicar a necessidade de criar riqueza e da acumular.
Agustina – que teve uma nota no caderno económico deste último Expresso – refere-se através de um dos seus romances, a "Sibila", a esta questão. Apesar de ser sobre uma sociedade já distante – anos cinquenta em Portugal – onde se desenrola o romance, continua a ser certeira. A posse ou a acumulação não é mais que “uma forma de libertação da opressão do trabalho”. Não podia ser mais verdadeiro. Pelo menos do meu ponto de vista. A acumulação está intimamente relacionada com a liberdade. Pois não se pode ter liberdade sem autonomia. E esta consegue-se contra a opressão, de outros ou das circunstâncias. A subsistência assegurada, relacionada com o nosso modo de vida, é essencial para não nos sentirmos “oprimidos”. Nem pelo trabalho.
Hoje convivem vários modos de lidar com esta questão. Mas os novos escravos são já, não só os que dependem inteiramente do trabalho ou da falta dele, mas os que vivem para pagar o crédito contraído. Dependentes dos seus desejos e já não das suas necessidades básicas, vivem aprisionados no seu cartão de crédito.
Citando Agustina“ devemos ter uma restrição das vontades, dos desejos, dos excessos que nos poderiam ser permitidos”. Apesar de tudo a liberdade é sempre uma opção entre aquilo que, face às limitações escolhemos, ou o que nos é imposto. Prefiro a primeira.

quinta-feira, janeiro 13

A Verdade

Será a verdade o mais difícil de dizer? Ou mentir é mais fácil? Esta dúvida atormenta o homem desde que é homem. Não tenho, por isso, a presunção de dizer que é uma questão fácil. Há muitos anos que penso sobre este dilema. Quer na vida pública quer na privada. Tenho acreditado que a verdade – ou a sua aproximação, como diria Popper – é melhor remédio para os problemas. Na vida pública criou-se a convicção que só com a mentira se consegue governar. O ilusionista tornou-se o paradigma do político de sucesso. O verdadeiro artista.
A visão contrária acabou por ser esquecida. Mesmo neste “banho de realidade” a que Manuela Ferreira Leite, nos sujeitou, caímos numa nova ilusão. A do cumprimento do défice. Um problema que, sendo essencial, não constitui o essencial.
Dr. Pereira Coutinho – o empresário – falou sobre o essencial na “ Grande Entrevista”, a Judite de Sousa. Disse coisas simples, ao longo de toda a conversa. Como:
Falar a verdade.
Gastamos mais do que podíamos e podemos, temos de gastar menos.
Estabelecer objectivos e explicar os sacrifícios que necessariamente vamos ter de passar. Criar um rumo.
Ter confiança em nós e nos outros.
Honrar a confiança, cumprindo.

Questões simples que são essenciais como atitude. “Estado de espírito”. O resto já está diagnosticado. Basta querer fazer. Sem artifícios. Deus nos ajude…

quarta-feira, janeiro 12

O Lugar da Arquitectura


ESE - Setúbal. Siza Vieira 1986-1994


A Escola Superior de Educação de Setúbal (ESE) é uma pequena maravilha no contexto da Arquitectura nacional, e no meio local onde se situa – Manteigadas em Setúbal. É a prova de que um lugar pode ser refeito com uma obra de arquitectura.
Esta escola está situada num pólo politécnico de Setúbal que contem diversos edifícios, onde este se destaca na sua relação com a envolvente. Não tenta nenhuma “integração” como agora se usa tanto apenas se afirma no respeito por aquilo que o lugar, antes da arquitectura, já possuía, valorizando-o.
Estudar num espaço como este torna-se um privilégio. A “construção” de um bom espaço eleva o espírito. Será isso quantificável ? Gerações irão usufrui-lo. Sem outros custos. E nem sempre são necessários grandes investimentos, como o presente exemplo pode atestar. Assim é o património. O contemporâneo e o histórico.
A valorização do que existe, evidenciando o seu potencial, é primordial na arquitectura. Este é o lugar da arquitectura.

segunda-feira, janeiro 10

Porta Sobre o Oceano


Edward Hopper - Rooms by the see (1951)

Gostaria de voltar a olhar o mar à minha porta e por ela sentir a luz que necessito. Saudade de futuro? Não sei, mas vontade de mudança.
Estaremos dispostos a trazer novos mundos para o (nosso) mundo? Teremos a coragem de ser aventureiros e criadores na nossa própria terra? É urgente libertar amarras. Podemos perder alguma segurança – medíocre aliás – mas ganharemos outro estado de espírito.
Abrir portas é preciso. Escancará-las. O mofo tem de sair, definitivamente!

quinta-feira, janeiro 6

Farol é preciso

Falar de politica vale sempre a pena. Mas falar agora sobre o contexto político do país é, no mínimo, desolador. Todos os temas relacionados com esta campanha raiam o cómico, caindo rapidamente no trágico. Penso que todos os seres lúcidos desejam que 21 de Fevereiro chegue depressa. Apesar de não ser certo o descanso. Temo que a tragédia volte mais rápido do que possamos prever.
Não me lembro de uma época tão tristemente, desinteressante e asfixiante. Sem perspectiva. Aparentemente sem horizonte. É estranho que todos os debates sobre a “espuma dos dias” me pareçam surrealismo de Série B. Como exemplo, o último “Quadratura do Circulo” foi, sem dúvida, o pior que eu já assisti. Reflecte bem o “espírito do tempo”.
Sugiro que falemos pois de outras coisas. Onde poderá estar um farol que me alumie a alma?
Até amanhã.

Edward Hopper

domingo, janeiro 2

Regresso

O regresso a casa é sempre um misto de desejo pelo reencontro do que nos é mais caro e uma súbita e precipitada nostalgia do lugar que deixamos – se dele guardamos boa memória. Assim foi, mais uma vez, no Funchal. Bom Ano Novo.


quinta-feira, dezembro 23

Funchal



Deixar o frio e ir para o ameno clima do Funchal é bastante interessante. Adeus frio, até ao próximo ano…
Se poder volto por lá a escrever.
Boas Festa!

segunda-feira, dezembro 20

Paradigma Urbano

As cidades do novo milénio. Livro a não perder para quem, como eu, se interessa pelas problemáticas urbanas. Myron Magnet, quem seleccionou este conjunto de artigos, publicados na City Journal. Esta revista trimestral tem sido, nos últimos anos, a “caixa de ressonância” do debate sobre politicas urbanas, politicamente incorrectas. Questões como a «segurança social», a «criminalidade», a «educação», os «sem abrigo», são abordados de uma outra perspectiva. Pouco dada ao tradicional discurso da “complexidade” que nos torna a todos inoperantes, estas análises, baseadas em questões concretas, com soluções aplicadas, abre-nos novos horizontes sobre velhos problemas das cidades. É obviamente sobre a realidade Americana, mas não deixa de reflectir os problemas que sentimos. A forma como se poderão resolver é que é distinta. Desta vaga de novas politicas urbanas Nova Iorque, foi a sua expressão mais visível. O seu Mayor, Rudy Giuliani – que se tornou mundialmente conhecido com a tragédia de 11 de Setembro e a forma enérgica como reagiu à catástrofe – foi um dos principais protagonistas desta “regeneração urbana”. O Compstat – departamento policial com uma abordagem activa e preventiva – foi o instrumento que esta cidade necessitava para fazer descer a criminalidade. Facto apontado como a principal causa da decadência de Nova Iorque. Em seis anos de implementação, a criminalidade geral caiu 50% e o assassínio para 1/3. Atacar a criminalidade permitiu o ressurgimento da actividade económica e o voltar de população para as zonas centrais da cidade. È obra.
A ideia de “cidades ingovernáveis”, que se espalhou durante as décadas de 70 e 80, tem vindo a ser abandonada graças a uma nova metodologia assente numa hierarquia de valores diferente. A actividade económica pode não florescer se o crime for impeditivo, por exemplo, por muito dinheiro que se gaste em recuperação urbana.
A não perder.
Da Quetzal Editores.

Esperança



Este é um belo quadro de Gustav Klimt, pintado em 1903.
Chama-se Esperança I.
Nesta imagem o pintor mostra-nos a nudez alva de uma jovem mulher perplexa mas confiante. O Simbolismo do fundo negro povoado de figuras grotescas, vencidas, mas presentes, sempre, em contraste com a branca e frágil figura. Eis a maternidade na sua essência. A força da vida versus o medo que ela provoca. A vontade de dar “à luz” transporta consigo o receio. No entanto, não é isso a esperança?
Nesta época, o valor por esta pintura transmitido traz-me algum conforto…

sábado, dezembro 18

Portalegre


Portalegre



Estive ontem em Portalegre. Portugal está incrivelmente mais acessível. Setúbal -Portalegre em menos de 2 horas estava lá. Sem acelerar e com nevoeiro.
Esta cidade a norte do Alentejo está fora de rota. Os grandes eixos do “desenvolvimento” não passam por ali. Sendo uma cidade do interior e estando fora dos caminhos de ligação a Espanha tem vindo a perder importância económica há décadas. A demografia confirma-o.
Esta cidade é atípica no panorama alentejano, pois situa-se no cimo de uma serra – S. Mamede. A fisionomia da cidade histórica é de alguma dignidade revelando uma certa opulência económica decorrente da sua vida rural. O crescimento da cidade durante o Estado Novo é seguro e integrado. A transição das colinas para a planície cresceu pior. Ainda não está consolidada, mas, pela morosidade e crescimento lento a que foi sujeita, por contingências históricas, ainda poderá recompor-se.
Cá está mais uma cidade do interior – já antes aqui me referi a Évora - em que a instalação do Ensino Superior não chegou como vector de desenvolvimento e simultaneamente para fixar população. Outros caminhos vão ter de seguir para se afirmarem como pólo regional.
Em termos gastronómicos o prato típico é bem razoável e a comida tem sabor “caseiro”. O sentido é literal. O restaurante onde comi, perto da Câmara Municipal, tinha cerca de cinco pessoas sentadas enquanto almocei. Quase em família. Em todas as situações podemos encontrar vantagens, é saber aproveita-las.

quarta-feira, dezembro 15

Previsibilidade e bom senso

A época que estamos a viver é estranha, nada do que é suposto acontecer, acontece. O presidente, em Junho, faz o que ninguém esperava, não dissolve o Parlamento. A meu ver bem. Reconduz um novo primeiro-ministro, mas dá a entender que este deveria manter a linha de rumo do anterior governo.
Este primeiro a primeira coisa que faz é mudar estruturalmente a orgânica do governo. Com todos os custos que isso tem na administração. Um atraso de meses entre a posse de um novo ministro e a nova aprovação da nova lei orgânica. De seguida, o primeiro-ministro fica instável com o problema da “legitimidade” pedida pela oposição. Tornando-se ele próprio no maior sintoma de instabilidade governativa, vendo-se na incubadora e mal tratado por todos, inclusive pelos seus, os tais “irmãos mais velhos” e restante família. Entretanto anuncia um “tempo novo” de que o orçamento do estado é o principal arauto.
O presidente resolve - a propósito de Chaves - então dissolver a assembleia, o que parecia inevitável, apesar do calendário não ser a melhor. O que o primeiro parece sentir como um alívio. Pelo menos passou a andar melhor encarado, menos acossado. Sorridente até. No entanto o presidente, pasme-se, quer ver aprovado este orçamento do estado. O principal instrumento político deste governo, aparentemente desgovernado. E por causa do aumento dos funcionários públicos. Despesa e não consolidação orçamental, como aparentemente defendia.
Não bastando o governo demite-se. A aliança não se faz, mas anuncia-se um acordo pós eleições no caso do PSD as ganhar.
Sinceramente, há alturas em que gostava de maior previsibilidade. Ou será apenas bom senso…

terça-feira, dezembro 14

Templo de Diana



Templo de Diana
Voltar a Évora é sempre um prazer. O “cheiro a Alentejo” é inebriante. Ter a possibilidade de comer uma verdadeira açorda, com bacalhau e ovo cozido retempera o dia, já de algum cansaço. Estando previsto mais, depois de almoço, soube a descanso merecido, a reencontro.
Atravessei a cidade a pé. Não só o centro histórico, mas para lá das muralhas. Évora cresceu bem. Cresceu devagar. Não foi sujeita ao crescimento avassalador das, actualmente denominadas, Áreas Metropolitanas. Dentro de muralhas é altamente compacta e densificada, como o são todas as grandes cidades históricas em Portugal. Mas fora destas cresce com espaço. Cheia de interstícios – deixados pelas propriedades ainda agrícolas, ou nem por isso mas apenas expectantes – entre os bairros. Todo o conjunto de casario é um bairro. Como toda a casa no campo é um “monte”. Estes bairros foram crescendo fora da “velha” urbe, mas vão-se adoçando ao longo de vias com dimensão contemporânea, continuando a construir a cidade. Renovando-a.
O que preocupa é a densidade, ou a falta dela. Os números não mentem e revelam uma diminuição constante da população escolar. Não estou a falar da universitária, mas do ensino básico e secundário. Começa a estar provado que não basta a universidade para puxar e manter população. São necessários outros “motores” de desenvolvimento para as cidades médias do interior. Estas, mesmo as patrimoniais, como é o caso, não vivem só de edifícios. Os seus habitantes são a sua maior riqueza. Sem eles fica só “ruína”.
Passar pelo templo de Diana deixa-me sempre uma perplexidade: é belo, mas os Romanos já não habitam lá…

sexta-feira, dezembro 10

Desperdício

O desperdício é coisa que me aflige. O desperdício de dinheiros públicos mais ainda. Ainda mais de forma impune. Vem isto a propósito de uma entrevista dada pelo Dr. Eugénio da Fonseca, o Presidente da Cáritas Nacional e da Cáritas Diocesana de Setúbal, (no Jornal de Setúbal de 6 de Dezembro). Refere-se, este, ao impressionante esbanjamento de dinheiros públicos - no caso do Convento de São Francisco, em Setúbal – sem qualquer tipo de consequência. Lembro que este convento foi alvo de uma intervenção – ou antes, o terreno que lhe é contíguo, porque no edifício do convento, ainda nada foi feito para a sua recuperação – no sentido de retirar os seus ocupantes – realojados pelo programa PER – e de fazer um novo Colégio da Casa Pia. Ao tempo o primeiro-ministro era o Eng. António Guterres. No entanto, só recentemente foi, parcialmente realizado. Só nesta altura se percebeu que as instalações produzidas não servem para o propósito pretendido. Apesar de ser um projecto de raiz. No entretanto gastaram-se milhares de euros e, provavelmente, gastar muitos mais para o poder por a funcionar. Caso muito estranho. Mas apesar disto tudo, que eu tenha conhecimento, nenhum relatório da Segurança Social foi realizado para apurar o responsável, ou responsáveis, por tamanha irresponsabilidade. Agora está-se a tentar “encontrar” uma nova função para este novo elefante branco. Recordo que neste caso me parece ser a responsabilidade não só politica mas também técnico/administrativa. Mas nada disso importa. O que está feito, feito está, especialmente porque o dinheiro é de todos. Porque se fosse dos que tomaram esta decisão, provavelmente não acabaria assim.
Para corrigir estes procedimentos não é necessário aprovar nenhuma nova lei, basta vergonha e responsabilidade. E passar a entender os dinheiros públicos como nossos e não “deles”.

quinta-feira, dezembro 9

Mudar de Vida

A vida é surpreendente. Sempre mais do que possamos pensar. Mesmo na mais rotineira das existências ela não deixa os seus créditos por mãos alheias. E uma vez por outra, lá prega uma partida, e o que pensávamos seguro, de repente deixa de o ser. Por esta razão – e por humildade metodológica – tenho sempre algum pudor em análises determinísticas. Tenho, por isso, alguma cautela com o excesso, próprio de tempos de viragem, mais condizentes, estes, com a lógica do seguidismo imediatista que com a reflexão. Necessariamente irmanada pela indispensável calma e ponderação individual.
Tal como no nosso percurso individual, esta intervenção exterior - a que chamei vida - apresenta-se também na dimensão colectiva.
Vivemos actualmente num tempo surpreendente - não é o mesmo que interessante - mas cheio de surpresas inquietantes. Julgávamo-nos plenamente “integrados” nesta Europa, já comodamente instalados. Eis senão quando, nos apercebemos que no essencial ainda muito está por mudar.
Penso que estamos – no nosso caminho enquanto nação – numa nova fase de crescimento. Sem o percebermos muito bem, procuramos decidir a que universo de referências queremos pertencer – ao Europeu ou ao Africano.
Talvez hoje, e após muito séculos, estejamos de novo confrontados connosco próprios. Sem álibi, nem lugar para onde fugir. Estamos obrigados a decidir o que pretendemos fazer.
Pertencer à Europa foi uma viragem histórica sem precedentes. Mas, enquanto inicialmente, se encarou como uma nova forma de enriquecimento fácil. Agora estamos a perceber que é um caminho mais duro. Definitivo, ou pelo menos longo e aparentemente sem retorno. Gostamos do conforto mas custa-nos organizá-lo. Queremos ser “civilizados” e cumpridores, mas sempre que isso não nos afecte. Porque quando nos toca a nós é sempre “injusto” e tendencioso, “então e eles”? E “eles” são sempre os outros: os que são poderosos; os políticos; os ricos; os famosos; etc.
O esforço produzido até agora não me parece estar em causa. Mas penso que estamos num caminho sem volta. Temos que mudar. E mudar colectivamente. Uns com os outros e dentro do nosso país. Não nos resta mais nada senão, melhorar as nossas fraquezas e os nossos defeitos. E isso dói. No entanto, quanto mais longa for a demora, para corrigir o que está mal, mais tempo temos que sofrer.
O Fado é uma das canções nacionais, mas sinceramente, não julgo que sejamos masoquistas.

quarta-feira, dezembro 8

A Costa dos Murmúrios

É um filme triste. Honesto. No olhar, de uma mulher de “magala”, em fim de festa, que transmite. Fez-me compreender um outro lado da fase final da nossa colonização africana. Menos romântico, sem dúvida mas importante para a história. O da mulher que espera, com esperança, ou sem ela, o regresso. De uma outra vida, ou da morte.
Consigo perceber, hoje, melhor o convívio e a entrega permanente entre todas as pessoas, que ouvi nas histórias de família. A abertura de espírito e de hábitos é, num meio hostil uma resposta quase inevitável. Sem ninguém conhecido por perto todos se tornam mais abertos e tolerantes. A convivência torna-se uma fuga ao desenraizamento forçado ou desejado. O filme toca tudo isto mas numa perspectiva de desencanto, de desalento. Os protagonistas – um casal jovem e universitário – que se encontra com a guerra. Ele soldado na frente de batalha, ela recém casada e sozinha num território que começava a não ser “nosso”. As adversidades da vida e da guerra, acabam por fazer o resto… e o enredo não acaba bem.
Africa não foi só isto. Significou para muitos um encontro com outros horizontes, mesmo para os que foram para a guerra. Uma lufada de ar fresco, na vida mesquinha e sem perspectivas, em que a generalidade da “metrópole” vivia. Outra claridade e também uma noite mais escura. Terra de contrastes, mas de fascinante. Para muitos significou uma perspectiva de vida melhor, apesar da guerra. Essa era no essencial a minha percepção aquilo que os meus me contaram. Regressado com dois anos e meio, a minha memória desses tempos é a memória dos outros. Sendo dos outros e contada a uma criança a narrativa dos factos tende a ser “dourada” e romanceada. Omitem-se os medos e as perplexidades.
Este filme trouxe à nossa memória colectiva a tristeza daquela circunstância. E essa não se conta a uma criança. Depois de tantos anos, penso que já estamos maduros para a aceitar. Já sem nostalgia ou ódios - entre os que ficaram e os que retornaram - outros entendimentos sobre a nossa relação com África são agora possíveis e desejáveis. Penso que estamos mais crescidos para começar a ajustar contas com o passado. Este filme é disso prova.
A não perder.

domingo, dezembro 5

Já passaram 24 anos

O tempo começa a sentir-se. O estado do tempo e o tempo que já passou.
É verdade, já passaram vinte e quatro anos. Estava na Praça do Bocage, em Setúbal, fazia muito frio, tal como hoje. E como hoje sentia a perplexidade sobre o futuro. A força da vida interrompida, num momento tão determinante para o país, deixava-nos a todos com medo. Só tinha dez anos em 1980. O desespero da perda, ainda hoje guardado na minha memória, sentia-se com o avançar dos rumores do que minutos mais tarde se confirmaria. Centenas de rostos a chorar compulsivamente naquela praça, não são fáceis de esquecer, para uma criança que, pela mão do seu pai, se cruzava com a história naquele momento, sem o saber. A morte de Sá Carneiro veio confirmada pela voz de Soares Carneiro, então candidato presidencial. O primeiro-ministro era esperado em Setúbal, mas não foi assim que o destino determinou. O caminho foi bruscamente interrompido. As expectativas eram grandes sobre o futuro do país. E estas foram quebradas com a queda daquele avião. A tragédia marcou esse tempo.
O tempo, hoje, para além de frio, no resto, a comparação é …cómica.